O beb vai chegar!
Christie Ridgway

 
Ttulo: O beb vai chegar!
Autor: Christie Ridgway
Ttulo original: Ready, set... baby!
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998
Publicao original: 1998
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao: Nina
Reviso: Bruna
Estado da Obra: Corrigida

Pronto?
Para ser pai? Seth Cooper?
Aquele viajante independente, alm de solteiro convicto, que preferia enfrentar uma serpente gigante a segurar um beb nos braos? Ainda assim...
Preparada?
Me por acidente, Katie Mckay estava para ter um beb, e Seth havia prometido que a criana no cresceria sem um pai. Tratava-se exclusivamente de um casamento de convenincia, mas...
Bebs?
Havia algo em Katie que fazia Seth arder interiormente. E estar ao lado dela dia aps dia, noite aps noite, comeava a faz-lo desejar que aquele casamento fosse real...


O telegrama de Katie McKay dizia apenas "Precisamos conversar. Ponto."

Mas, quando Seth Cooper leu a mensagem, sentado diante de uma fogueira, em uma selva, do outro lado do mundo, soube que, na verdade, ela dizia:
"Beb chegando. Ponto. Lembre-se do que me prometeu. Ponto. Este beb merece ter um pai no s uma me. Ponto."
E, ainda, havia o significado de tudo aquilo para ele...
"Ponha fim  sua vida de solteiro independente. Pare de viajar pelo mundo, v para casa e seja um marido para Katie McKay e um pai para o filho dela. Pare de pensar em quanto sempre a desejou. E quando comear a pensar em se tornar um marido de verdade para essa mulher linda, charmosa e desejvel, pelo amor de Deus, pense em outra coisa."

Captulo I

Ela estava grvida ou no estava? A pergunta pairava sobre a cabea de Seth Cooper como a lmina de uma guilhotina.
Segurando o volante de seu Ford Explorer alugado, passou um longo momento olhando fixamente para a casa de Katie McKay, do outro lado da rua. A cortina xadrez pendia por trs da imensa janela da residncia grande e bonita, situada na pennsula de San Francisco. Um pinheiro imenso dominava o jardim, e um canteiro de amores-perfeitos circundava a caixa de correspondncia, na entrada. Infelizmente, nada disso dava a menor indicao sobre a dona casa estar grvida ou no.
Ora, Cooper, o que voc esperava?
 No sei  ele resmungou consigo mesmo.  Que tal uma grande flmula, anunciando: "O Beb Vem A".
No  assim que essas coisas acontecem, idiota!
Os dedos de Seth apertaram o volante com mais fora. Ele no entendia absolutamente nada sobre gravidez ou bebs. Relaxou os dedos. Nada disso responderia  sua pergunta. O problema era que ele jamais se imaginara enfrentando aquele tipo de situao. Quando seu irmo, Ryan, lhe contara sobre a infertilidade da esposa, Karen, Seth se sentira embaraado e, de certa forma, fascinado por saber at onde eles estavam dispostos a chegar, a fim de ter um beb.
Porm, o acidente de automvel que pusera fim s vidas de Ryan e de Karen, dois meses antes, tambm pusera fim ao sonho de uma famlia. Com dificuldade, Seth tratou de afastar a pontada de dor que lhe apertou o peito.
Havia a possibilidade de Katie McKay, irm de Karen, estar esperando o filho de Ryan e Karen.
Quais seriam as probabilidades de uma nica tentativa de inseminao artificial t-la deixado grvida?
Com um suspiro, Seth enfiou a mo no bolso, sentindo sob os dedos o telegrama que Katie enviara para o Vietn, onde ele estivera trabalhando. Mais uma vez, ele se perguntou o que as palavras dela... "Precisamos conversar"... poderiam significar.
Chega de adiar o inevitvel.
Seth havia recebido o telegrama havia dois dias, mas passara os ltimos dois meses fugindo daquela possibilidade, bem como de todos os problemas resultantes da morte de seu irmo. Dentro de cinco semanas, enfrentaria uma reunio de acionistas, na qual teria de provar que a companhia que pertencia a ele e a Ryan estava em boas mos.
Abriu a porta, saiu do carro, atravessou da rua e se encaminhou para a porta da casa. Chegara o momento de resolver todos os problemas... com rapidez e eficincia. Ento, poderia retomar sua vida na sia, Europa, frica, onde quer que seus ps o levassem.
Parou diante da porta e sentiu um arrepio de expectativa percorrer sua espinha. Cinco anos antes, conhecera Katie McKay e sentira... alguma coisa. Haviam danado juntos e aquela "alguma coisa" havia entrado em ebulio, para se extinguir por completo no momento em que a noiva atirara o buqu. Fora aquele pequeno ritual que o trouxera de volta  realidade.
A lembrana se desfez quando Seth voltou a pousar os dedos no telegrama. Com a outra mo, tocou a campainha e apurou os ouvidos. Ouviu passos leves, sem qualquer indicao de gravidez, aproximando-se. A porta se abriu. E l estava Katie.
Algo dentro dele se agitou, despertando-lhe a libido.
Ora, no preciso disso, agora!
Por alguma razo, a lembrana da beleza fascinante de Katie havia se tornado difusa em sua mente, ao longo daqueles cinco anos. Tratava-se de uma loira de um metro e setenta de altura e corpo deliciosamente esbelto. Os cabelos claros continuavam cortados na altura do queixo, de maneira a emoldurarem um rosto perfeito, de traos delicados e nariz pequeno.
Seth forou os olhos a abandonarem a beleza do rosto dela, a fim de examinar-lhe os tnis brancos, a cala jeans e a camisa larga, que chegava at quase os joelhos. Ento, contrariando as suas ordens, seus olhos voltaram a se fixar no rosto de Katie.
Mais uma vez, algo se agitou dentro de Seth.
Em seguida, foi uma onda de alvio que o invadiu.
Pode riscar um problema da lista.
Diversos motivos poderiam ter levado Katie a enviar o telegrama, mas no a gravidez. Uma mulher grvida que ele mal conhecia jamais seria capaz de excit-lo.
Seth sorriu. Sua libido, assim como o seu bem-desenvolvido senso de autopreservao, no lhe permitiriam cometer um erro to grave.
Katie McKay fitou o homem  sua frente, os dedos firmes no trinco da porta.
De repente, Seth Cooper sorriu, e a tenso abandonou-lhe as feies. O estmago de Katie fez uma pirueta.
 Seth, havia me esquecido de quanto se parece com Ryan  comentou.
Ento, abriu mais a porta e, com um gesto, convidou-o para entrar. Ainda sorrindo, ele atravessou a soleira e foi ento que Katie se lembrou de que Seth no era to parecido com Ryan, afinal. Embora o formato dos olhos verdes fosse o mesmo, embora os dois tivessem cabelos castanho-claros, Ryan no era nem de perto to grande quanto Seth. Com seus ombros largos e porte atltico, Seth parecia uma montanha... de charme.
Katie ignorou outra pirueta nervosa realizada por seu estmago. Notara outras diferenas entre os irmos no momento em que pusera os olhos em Seth pela primeira vez, na festa de casamento. Seth no escondia uma perigosa inquietao. A atitude arisca, como se mantivesse um olho fixo na porta, fora o que a fizera manter distncia. Ignorara os dedos fortes enlaados nos dela, a mo quente e firme em suas costas, enquanto danavam.
A fim de garantir a prpria segurana, ela evitara encontr-lo de novo. At aquele momento.
 Tenho caf pronto na cozinha. Venha.
Embora s bebesse ch de ervas, Katie havia preparado caf para a sua scia, Izzy. Alm disso, a notcia que tinha para dar a Seth poderia ser melhor digerida  espaosa mesa da cozinha.
Lanou-lhe um olhar rpido, e sacudiu a cabea de leve. Como ele pode permanecer to calmo, to tranqilo?
O encontro breve, porm inesquecvel, que haviam tido no passado, o presente problemtico e a incerteza do futuro criavam um clima que, ao menos para ela, apresentava-se repleto de tenso. No foi nada fcil atravessar a onda densa e invisvel que parecia separar a sala da cozinha.
A lareira acesa na sala fora uma das razes pelas quais ela havia escolhido aquela casa, alm do escritrio construdo nos fundos, que ela havia transformado em mais uma cozinha, para uso exclusivo da Katie's Candies, seu pequeno comrcio de chocolates caseiros.
Seth sentou-se  mesa, que se encontrava coberta de pastas, livros de receitas e um computador porttil.
	Desculpe a baguna  ela falou depressa, sentindo a boca subitamente seca de nervosismo.  Como trabalho em casa, minhas coisas esto sempre espalhadas por, a.
	No se preocupe com isso  Seth tranqilizou-a, reclinando-se na cadeira, parecendo muito  vontade.  O que  mesmo que voc faz? Algo a ver com comida, no ?
Katie sorriu, satisfeita por poder adiar mais um pouco o assunto mais importante a discutir.
	Fao chocolates caseiros e especiais.
Foi at o balco e encheu uma xcara de caf para Seth.
	Voc no se parece com Betty Crocker  ele comentou, referindo-se  figura estampada nas embalagens das guloseimas semi-prontas mais vendidas no pas.
Katie no sabia o que dizer. Seth parecia um aventureiro capaz de provocar sonhos romnticos, com sua beleza musculosa.
O que devia ser exatamente o que ele era, Katie sups, olhando para o homem que trabalhava como comprador da Ends of the Earth, a companhia de vendas por catlogo que pertencia a ele a ao irmo. Seth corria o mundo  procura dos produtos mais diversos e incomuns, desde canivetes com cabos de madeira entalhada, produzidos manualmente na frica, a mochilas tibetanas costuradas  mo.
Mas precisava contar a ele o motivo pelo qual havia enviado o telegrama. A lembrana fez com que Katie pusesse a xcara de caf sobre a mesa com fora exagerada.
Ela suspirou. Ah, Karen, onde quer que esteja, ajude-me. Pensar na irm acalmou-lhe os nervos. A morte estpida de Karen e Ryan havia provocado sentimentos sombrios, aos quais Katie estivera tentada a se entregar, at o mdico ter lhe dado o veredicto, um ms atrs. A notcia que ele lhe dera havia trazido propsito, esperana... vida de volta ao seu mundo.
Depois de se servir de uma xcara de ch, puxou a cadeira ao lado de Seth e se sentou. Preciso dizer a ele.
Fitou-o pelo canto do olho. Seth ficou olhando para a xcara de caf  sua frente por um longo momento e, ento, ergueu os olhos para a parede, coberta de retratos: Karen, Ryan, Karen junto de Ryan e Katie. no ltimo Natal, fotos individuais dos pais dela, h quase dois metros uma da outra. Era mesmo incrvel que eles pudessem ocupar a mesma parede!
	Katie, eu...
	Seth, eu...
Os dois pararam de falar e riram. O riso dele soou baixo demais, o dela, nervoso. O silncio voltou a tomar conta da cozinha. Ento, Katie respirou fundo e quebrou-o.
 Como vai voc, Seth? Estou me referindo a Karen e Ryan  falou, sentindo-se incapaz de entrar diretamente no assunto.  Voc est bem?
Ele fez uma careta.
 Estou sobrevivendo.
A dor que ele tentou esconder com o tom casual atingiu em cheio o peito de Katie.
 Sei como se sente  ela murmurou.
 Estou melhorando, aos poucos  Seth esclareceu, fazendo uma pausa para mexer o caf.  J viajei pelo mundo inteiro, Katie, e vi muitas coisas que no compreendo. Mas a vida continua. Ainda respiro e me alimento e tenho curiosidade de saber quem vai vencer o campeonato Super Bowl de futebol.  Fitou-a com um esboo de sorriso.  Os desenhos do Coiote e do Bip-Bip ainda me fazem rir.
	Pernalonga  o melhor  ela o corrigiu, com um sorriso terno.
Tudo daria certo. Seth era um ser humano normal e razovel.
Bastaria explicar a situao a ele. Diria que estava carregando o beb de Ryan e Karen no ventre, mas como Ryan e Karen no poderiam mais ser os pais, bem... Bem, contaria sobre o seu plano depois que ele houvesse se acostumado  idia da gravidez.
	Seth...
A porta da frente se abriu com um estrondo.
	Ol! H algum em casa?  uma voz masculina e amigvel ecoou na sala.
Desta vez, o estmago de Katie deu um salto mortal.
	Dan! Estou aqui, na cozinha.
Dan Hughes, marido de sua scia, Izzy, sabia que Katie estava grvida. O que aconteceria se ele fizesse algum comentrio antes que...
	Srta. K.!  Dan exclamou ao entrar na cozinha, com seu sorriso bonacho.  Como vai...
	Bem  ela o interrompeu, antes que fosse tarde demais.  Izzy saiu para providenciar alguns ingredientes de que precisamos.
O sorriso de Dan se alargou.
	No tente me enganar! Ela teve outro ataque de desejo de comer batatas fritas?  Ento, baixou os olhos para o ventre de Katie.  E voc? Est...
	Conhece Seth Cooper?  Katie voltou a interromp-lo, apontando para seu acompanhante.
Era evidente que Dan no se dera conta da presena do outro, at ento. A surpresa que tomou conta de seu semblante deu lugar a um sorriso de prazer.
	Seth, seu patife!
Seth, que j se levantara da cadeira com um sorriso nos lbios, estendeu-lhe a mo.
	Como vai, Dan?
	timo!  Dan respondeu e, imediatamente, ficou srio.  Voc no est to bem, no ? Sinto muito o que aconteceu a Ryan e Karen.
Seth enfiou as mos nos bolsos.
	Obrigado, mas j estou me recuperando.
	Bom saber!  O bom humor voltou a brilhar nos olhos de Dan, enquanto ele examinava Seth e Katie.  Afinal, com o...
	Dan!  Katie agarrou-o pelo brao.  Preciso que me faa um favor... l fora.
	O qu?  Ele pareceu confuso, pois embora fosse um ser humano maravilhoso, no era capaz de ler nas entrelinhas.
 L fora  Katie repetiu com nfase, apertando-lhe o brao.
 Certo, certo  ele murmurou, deixando-se levar o que fez Katie supor que Izzy estava tentando desenvolver a astcia do marido.
 Ei? ligue para mim  ele gritou para Seth, por cima do ombro, antes de voltar a encarar Katie.
 No imagina como estou feliz em v-lo Seth  meu melhor amigo, desde que ramos garotinhos.
Katie s precisou de alguns minutos para convencer Dan a entrar no carro e partir. Quando voltou para a cozinha, ela encontrou Seth sentado,  sua espera.
Ao v-la entrar, ele ergueu os olhos para fit-la. Algo parecido a uma corrente eltrica percorreu o corpo de ambos e, como se tudo houvesse acontecido cinco minutos, e no cinco anos antes, Katie sentiu o calor da mo dele em suas costas.
Agora, ordenou a si mesma, depois de repirar fundo. Entrelaou os dedos, como se o gesto pudesse lhe fornecer a coragem que ela no sentia.
	Seth, eu... bem, preciso explicar por que enviei o telegrama. Eu... como voc sabe, concordei em gerar o beb de Karen e Ryan.
Os olhos de Seth se arregalaram, mas o resto de seu corpo adquiriu uma imobilidade mortal.
A reao deixou Katie ainda mais nervosa, e ela se ps a tagarelar:
	O tero de Karen no tinha condio de levar uma gravidez a cabo, mas eu sou saudvel como um touro e... queria muito ajud-los. Karen praticamente me criou e me deu todo o amor de que uma garotinha precisa. Pela primeira vez, eu podia dar a ela algo em troca.  Apoiou-se no batente da porta, em busca de equilbrio.  E... bem...
Os olhos verdes de Seth penetraram os dela, como se pudessem ler sua alma.
	O que est tentando dizer? Katie tentou dominar o tremor.
	Estou tentando lhe dizer que vou ter um beb. Observou-o com ateno. Seth piscou vrias vezes, como se estivesse acordando de um sono profundo.
	Poderia repetir?  ele pediu com voz controlada.
	A inseminao artificial deu certo.
Katie percebeu, aliviada, que a expresso neutra continuava a dominar o semblante dele. Tudo ficaria bem, pensou. Embora a notcia fosse desconcertante, Seth parecia estar aceitando bem a novidade.
	Deu certo?  ele repetiu, como se ainda estivesse esperando que as palavras fizessem sentido em sua mente.
	Sim  Katie confirmou, lutando contra o n em sua garganta.  Estou grvida.
Katie estava grvida?
Uma torrente de emoes tomou conta de Seth. Toda a angstia provocada pela morte do irmo voltou a atac-lo com fora total, sendo seguida por um forte sentimento de traio. Como Ryan podia estar morto? Como mais um Cooper, mesmo que sem inteno, podia abandonar o filho?
Seth cobriu os olhos com as mos e respirou fundo. Lentamente, os sons do dia, como carros passando na rua e passarinhos cantando, penetraram o zumbido ensurdecedor em seus ouvidos.
O que fazer a seguir? Seu primeiro impulso foi de correr at o aeroporto e pegar o primeiro avio para qualquer lugar, desde que fosse muito distante. Porm, no poderia fugir. No agora.
Ao menos, por enquanto. Precisava garantir que Katie e o beb... o filho de Ryan, pensou, sentindo a garganta se apertar... tivessem um futuro seguro. Alm disso, tinha de resolver a situao da Ends of the Earth. S ento deixaria de ser necessrio, ali. Dentro de algumas semanas, poderia estar a bordo de um avio, indo embora.
Retirou as mos do rosto. Katie certamente tinha um plano. Tudo o que Seth tinha a fazer era tomar conhecimento desse plano e como se encaixaria nele.
Abriu os olhos e virou-se para fit-la. Como esperasse v-la como uma mulher grvida, agora, uma me, a beleza pura daquele rosto o surpreendeu mais uma vez. Os cabelos loiros e sedosos, os lbios generosos e sensuais, o perfume... Ora, por que ele tinha de se dar conta do frescor da fragrncia justamente agora?
	Precisamos conversar  declarou, tentando se concentrar no problema que o levara at ali.
	Sim, precisamos.
	Para mim, a notcia foi um... choque.
Katie assentiu, sem erguer os olhos.
	Eu sei. Tambm me senti assim, quando fiquei sabendo. Eu no tinha considerado a possibilidade, depois da morte de Karen e Ryan.
Seth foi imediatamente invadido pela culpa. Em momento algum nem sequer pensara em como Katie se sentira ao descobrir que teria um filho rfo.
	Sinto muito  murmurou a frase sem valor, sentindo-se constrangido.
	No sinta  ela o corrigiu, com um brilho de honestidade naqueles olhos to azuis.  Quando soube do beb, descobri uma maneira de ser feliz outra vez. No sei se voc compreende.
	Claro  Seth replicou, ao mesmo tempo em que um arrepio premonitrio percorria a sua espinha. Entre no assunto de uma vez, Cooper.  Bem, ento... voc esteve pensando nisso...
	Nisso?
	No beb... na gravidez... O que pretende fazer?
Ora, era evidente que ela j tinha alguma idia.
Bastaria esperar que ela explicasse seus planos.
Katie voltou a erguer os olhos, fixando-os nos de Seth.
	E voc? Afinal, esta criana  seu sobrinho, ou sobrinha, tanto quanto meu. Est preparado para assumir a responsabilidade por um beb?
Seth engoliu seco, ao mesmo tempo em que sentia o corao ameaar partir-lhe as costelas.
	Deixe-me explicar o que estive pensando  ela acrescentou, antes de se lanar em um longo discurso.
Ainda tentando recuperar a clareza de raciocnio, Seth se limitou a assentir repetidas vezes.
	Uma criana precisa ter pai e me.
Seth concentrou-se em fazer o ar chegar aos pulmes.
	Ambos devem cuidar dela, viver com ela  Katie continuou.  Voc no concorda?
Como ainda estivesse lutando para recuperar o ritmo normal da respirao, Seth no respondeu. A verdade era que ele no possua muita experincia no que dizia respeito a um lar, com pai e me juntos. Seu pai havia abandonado a famlia quando Seth tinha nove anos e Ryan, dez. E o desempenho de sua me na tentativa de criar os filhos sozinha fora um grande fracasso.
Porm, o silncio dele pareceu no se registrar na mente de Katie, que prosseguiu com seu discurso sobre a prpria infncia que, segundo ela, fora dividida em semanas alternadas em companhia do pai, ou da me.
	No quero esse tipo de vida para o beb. E a que entra o meu plano, envolvendo pai e me.
Imediatamente, Seth cerrou os dentes e os punhos, em um gesto reflexo e involuntrio. Ela no pretendia... no podia estar falando em...
	Este beb precisa ter pai e me. Desesperado, ele tentou falar:
	Mas...
	Tenho a responsabilidade de criar esta criana, mas no sozinha.
Seth ouviu as implicaes nas entrelinhas. Katie queria que ele, o solteiro inveterado, o homem que punha continentes entre si mesmo e os envolvimentos pessoais, vivesse com ela e criasse seu filho. Uma gota de suor rolou por sua testa. Ele no seria capaz.
Katie o fitava como se estivesse lendo cada um de seus pensamentos.
	Algum problema?
	Bem, eu...  Seth engoliu seco, de novo.  Acontece que no sei se... se saberei ser um bom p...  Ora, ele nem mesmo conseguia pronunciar a palavra!
Katie franziu o cenho.
	Um bom p...?  repetiu.
	Um bom p-pai. Ela riu.
	Voc seria um pssimo pai!
	Seria?
	Claro! Especialmente se quase teve um ataque cardaco, s de pensar no assunto! E deve ser um marido terrvel, tambm.
	Ora, muito obrigado.
Katie soltou outra risada.
	No pensou que eu estava falando de voc, pensou?
	Claro que no  ele negou depressa, ainda confuso, mas determinado a salvar a sua dignidade.
	Pensou, sim  ela protestou de bom humor.
Seth limitou-se a cruzar os braos.
	Deixe-me pr um fim  sua infelicidade  Katie decidiu com generosidade divertida.  Voc no faz parte do meu plano.
Seth continuou a fit-la nos olhos, enxergando neles o reflexo de si mesmo, na forma de uma montanha de estupidez.
	Quero um marido e um pai para o beb  ela continuou, pousando a mo no ombro de Seth  e tenho um plano em mente, Seth, mas esse plano
no inclui voc.

Captulo II

Ter tocado Seth foi o nico erro que ela havia cometido, Katie pensou. At ento, tudo ia muito bem. Agora, o ombro dele lhe oferecia uma forte sensao de segurana, alm do desejo de pousar a cabea naquela solidez. Ao sentir a pele arrepiar, retirou a mo depressa. Ora, as doses extra de hormnios que seu corpo passara a produzir eram mesmo perigosas!
	Se no sou eu  Seth quis saber , ento, quem ?
Katie fitou-o, confusa. Quem  o qu? Precisou de alguns segundos para se lembrar do que estavam falando: do beb, de seu plano.
	Sim... sim.
	Quem?  ele persistiu.
	Bem, eu... H um homem que conheo h muito tempo, um bom homem, que quer se casar comigo. E inteligente e bem-sucedido. Ser um timo pai para o beb e...
	Continue.
	J conversamos sobre o assunto, um pouco...
	Conversou sobre o seu plano com esse "bom homem"?
	Sim. Eu ainda no dei uma resposta definitiva porque queria conversar com voc, antes. Afinal, voc  o nico parente, alm de mim. Mas ele parece ser tudo o que quero.
	Quer se casar com um "bom homem"?  Seth indagou, erguendo as sobrancelhas.
Katie no gostou do tom de voz que ele usou.
	Claro que quero, e ele tambm parece ser o parceiro ideal para me ajudar a criar o beb.
Seth se levantou de sbito e foi at a janela.
	No sei.
	Talvez seja a soluo perfeita.
Ele se virou para encar-la, mas o sol s suas costas impediu Katie de ver-lhe a expresso.
	Talvez.
Aps um momento de silncio, Seth se aproximou de Katie, segurou-lhe o queixo entre os dedos, forando-a a fit-lo nos olhos.
  o que voc quer?
Katie engoliu seco. Embora apenas a ponta dos dedos dele estivessem em contato com sua pele, ela no conseguia pensar no que realmente queria. Ou, talvez, no se atrevesse a pensar no que passara a querer, nos ltimos minutos.
	Esse tipo de assunto no  mencionado nos livros sobre gravidez  murmurou.
Definitivamente, os livros se referiam ao aumento da produo de hormnios, mas no citavam seus efeitos sobre a reao da grvida  presena do homem errado.
 Posso imaginar  Seth falou com uma careta.  Se lhe serve de consolo, estou to perdido quanto voc.
Incapaz de controlar as prprias reaes, Katie s pensava em se livrar daquela presena perturbadora.
 Por que no vai embora, agora? Pense no que eu disse.  Levantou-se e se afastou.  Venha jantar conosco, esta noite. Tom estar aqui. Talvez, depois de conhec-lo, voc tambm considere a soluo como sendo a melhor possvel.
Ao fechar a porta, depois de se despedir de Seth, Katie finalmente respirou aliviada. Embora ele houvesse concordado em jantar l,  noite, ela teria ao menos algumas horas de sossego.
Sentou-se no sof, passando os braos em torno do corpo. Pela primeira vez, desde que descobrira estar grvida, sentia medo. Desde o incio, acreditara ter a situao sob controle, mas Seth complicara a situao, deixando-a com muitas dvidas sobre o seu plano.
Ora, o plano era bom! Karen e Ryan compartilhavam a sua f na necessidade de uma famlia. Certamente, desejariam o mesmo para seu beb.
Katie no tinha dvidas de que seria capaz de criar aquela criana sozinha, pois tinha muito amor para dar. Por outro lado, tudo o que lhe faltara na infncia, faltaria a seu filho, tambm.
Provavelmente, no seria difcil persuadir Seth a fazer parte da vida do beb, mas era evidente que ele ficara chocado com a notcia. Um homem que passava a vida correndo o mundo no fazia, de maneira alguma, o tipo familiar.
Tom Harding, esse sim, era um exemplo perfeito do "tipo familiar". Como Katie dissera a Seth, Tom era inteligente e bem-sucedido, alm de querer se casar com ela e, aparentemente, desejar uma famlia, tambm. Resumindo, tratava-se de um homem que passaria o resto da vida ao lado dela.
Casar-se com Tom resolveria todos os problemas.
Katie se levantou do sof e, com passos determinados, foi para a cozinha, afastando da memria a expresso ctica que vira no rosto de Seth, antes de ele partir.
O jantar daquela noite dissiparia qualquer dvida que Seth tivesse com relao ao seu plano... alm das dvidas dela, claro.
Seth esfregou os olhos vermelhos e olhou para os clipes de papel e copos de caf vazios que cobriam a mesa da sala de reunies da matriz da Ends of the Earth, em San Francisco. Girou a cadeira, posicionando-se de frente para a nica pessoa que permanecera na sala, alm dele: Grace, a assistente de confiana de seu irmo.
	Que confuso, no?  murmurou, cansado.
	A Ends ofthe Earth no pode se auto-administrar  Grace comentou com um sorriso firme e leal.
	Pensei que Phyllis, ou Jared pudessem...
A assistente negou com a cabea.
	Ainda no. Vo precisar de tempo. Talvez, muito tempo.
Dentro de seis ou sete meses, o beb vai nascer. Seth no pde impedir o pensamento sbito, nem a dor provocada por ele.
	Eu pretendia estar longe daqui, dentro de duas ou trs semanas  confidenciou.
	Temos outros compradores que podem fazer o seu trabalho, Seth, mas precisamos de voc aqui. Durante todos esses anos, voc deixou a companhia nas mos de Ryan, o que foi uma deciso mais que correta. Agora, porm, s voc pode assumir o cargo.
De repente, as paredes da sala de reunies pareceram se fechar sobre Seth, ameaando sufoc-lo.
Talvez Grace estivesse errada, e ele pudesse treinar Plyllis e Jared para fazerem o trabalho de Ryan. E, se dedicasse todo o seu tempo a isso, poderia trein-los muito bem.
Afastou a cadeira da mesa e se levantou. Assim que resolvesse o problema de Katie poderia se concentrar inteiramente no trabalho. Naquela mesma noite, resolveria de uma vez por todas aquela questo. Ento, faria tudo o que era preciso na Ends of the Earth. Uma vez realizada essa tarefa, finalmente poderia pegar um avio e desaparecer dali.
Quando bateu na porta de Katie, naquela noite, Seth foi recebido por uma mulher grvida, de cabelos ruivos cacheados. Sorriu para ela, determinado a gostar de todas as pessoas que encontrasse ali. Afinal, uma vez certo de que o futuro de Katie estava garantido, sua vida poderia voltar ao normal.
A mulher retribuiu o sorriso com ar amigvel e estendeu-lhe a mo.
	Sou Izzy, scia de Katie  apresentou-se.  Acho que j conheceu o meu marido, Dan. Katie est vomitando.
	Ora, isso ... desagradvel  Seth comentou, sem jeito.  Seria melhor eu voltar mais tarde?
	No. Venha at a cozinha. Ela j deve estar melhor, agora. Alm disso, Tom est aqui.
Tom. Seth precisou de alguns segundos para se lembrar do nome do "bom homem", antes de se ver apartando a mo do sujeito.
	Tom Harding  o outro se apresentou.   um prazer conhec-lo.
Tom Harding era um loiro de trinta e poucos anos, que poderia ser banqueiro, corretor de aes, ou executivo em uma empresa de informtica... enfim, um daqueles tipos que no temem a recesso, pois jamais seriam afetados por ela. Vestia cala caqui, engomada, e camisa azul e, em poucos minutos, contou a Seth que era diretor de uma financeira.
O sr. Sucesso estava falando sobre o pat de caranguejo com alcachofra, feito em casa, e o bolo de queijo que levara para a sobremesa, quando Katie entrou na cozinha, muito plida. Aparentemente um homem sensvel, Tom beijou-a de leve na testa. Seth cumprimentou-a de longe.
	Ol, Seth  ela respondeu com um sorriso e se sentou.
Seth no pde evitar que seus olhos baixassem para o ventre ainda liso sob a tnica larga, mas se arrependeu no mesmo instante, pois algo primitivo se agitou dentro dele.
	Voc passou mal?  perguntou.
Sabia que no era delicado tocar no assunto, mas Tom j passara pat em uma torrada e tentava fazer Katie com-la. Talvez algum precisasse lembr-lo de que ela poderia no querer comer, naquele momento.
	Muito. Foi a primeira vez. Agora, estou morrendo de fome!  Katie respondeu, abocanhando a torrada com gosto.
Ao desviar os olhos para Tom e deparar com o sorriso indulgente em seus lbios, Seth descobriu que no fora tomado de simpatia imediata pelo sujeito.
	Hum! Est delicioso, Tom  Katie elogiou.  No acredito que correu para casa, depois de um dia inteiro de trabalho, e preparou esta maravilha! E um bolo de queijo, tambm!
Seth tambm no acreditava. Experimentou o pat. Estava timo. Desconfiou de que Tom tinha cozinheira, mesmo quando o outro comeou recitar os segredos, dignos do FBI, do seu bolo
 Katie, onde esto as cebolas?  Izzy perguntou.
 Na ltima prateleira da despensa  Katie respondeu com um suspiro.  Eu deveria me levantar e ajudar voc.
Izzy sacudiu a cabea.
 Fique onde est. Se vou jantar aqui porque meu marido no est em casa, o mnimo que posso fazer  preparar a comida. Especialmente voc no estando to bem.
 Tenho uma excelente receita de espaguete  Tom ofereceu.  Por que no me deixa...
	Farei a minha receita  Seth o interrompeu, sem pensar.
O sr. Sucesso fitou-o pelo canto do olho e perguntou, desconfiado:
	Voc sabe cozinhar?
Seth decidiu encarar o tom incrdulo como elogio.
	Sei  mentiu, pois jamais havia preparado algo mais complicado que um hambrguer, ou um sanduche de queijo.
Que dificuldade poderia haver na preparao de um espaguete? Alm do mais, a expresso de surpresa no rosto de Katie era um grande incentivo.
	 Ora, eu adoraria experimentar a sua receita ela falou com um sorriso.
Seth se levantou e parou diante da geladeira, sem a menor idia do que deveria fazer a seguir.
 O que fazemos em primeiro lugar?  Izzy perguntou.
	Cozinhamos o espaguete  ele a orientou.  No sabia por quanto tempo, mas seu blefe pareceu funcionar, uma vez que Izzy se ps a trabalhar imediatamente. Ento, Seth abriu a geladeira, examinando o contedo, ao mesmo tempo em que prestava ateno na conversa entre Katie e Tom, que se mostrava disposto a contar o seu dia, com todos os detalhes. Quando Katie tentou comentar sobre um problema que tivera no trabalho, ele mudou de assunto rapidamente. Quando ela mencionou algo sobre a gravidez, ele fez o mesmo.
Seth continuou examinando o interior da geladeira. O que era necessrio para fazer um molho de macarro? Apanhou tomates, aipo, cogumelos, brotos de feijo e mais alguns ingredientes. Izzy se aproximou com um sorriso e devolveu os brotos de feijo, bem como as mas,  geladeira. Ento, apontou para a tbua e a faca sobre o balco. Seth passou alguns segundos olhando para os ingredientes amontoados ali. O que fazer a seguir? Precisaria de um liquidificador? Ou bastaria colocar tudo na panela e deixar cozinhar?
	Costuma usar molho de tomate pronto e s acrescentar esses ingredientes?  Izzy perguntou com uma piscadela.
Reconhecendo o presente que ela estava lhe entregando em uma bandeja, Seth sorriu.
	Exatamente.
Seus ouvidos continuaram sintonizados na conversa de Katie e Tom.
	Teremos de passar algum tempo em Tahoe, no prximo inverno  ele dizia.  Estamos fechando negcio com uma construtora para a inaugurao conjunta de uma estao de esqui. Voc vai adorar, Katie.
	Bem, no sei se ser possvel  ela argumentou, lanando um olhar de dvida para o prprio ventre.
Uma sombra de irritao alterou o semblante de Tom.
	E para isso que servem as babs, Katie, para que os pais possam tirar frias.  Depois de refletir por um instante, acrescentou:  Embora levar o beb no seja m idia... com a bab, claro.
Katie sorriu, satisfeita.
	Eu gostaria muito de levar o beb conosco.
Seth teve de reprimir o impulso de gritar: S se for por cima do meu cadver! Para isso, usou a fora produzida pela raiva para picar a couve-flor com golpes mortais da faca afiada.
	Talvez seja uma boa idia ir como uma famlia
 Tom continuou, cocando o queixo.  Jack Evans, presidente da construtora,  um av muito devotado.
Seth revirou os olhos, destruindo a couve-flor. Porm, depois de Izzy t-lo ajudado a preparar o jantar, todos se sentaram para comer, e Seth decidiu ser mais condescendente com Tom. Afinal, o sujeito tinha boa aparncia, sabia cozinhar e at mesmo elogiou a couve-flor que Seth acrescentara, inadvertidamente, ao molho, em vez de us-la na salada.
E, claro, Tom lavava pratos. Seth fingiu ajud-lo.
	Ento,  voc o tio ausente  Tom comentou com um sorriso petulante.
Seth imobilizou-se, esquecendo-se dos talheres que tinha nas mos. Tio ausente. De repente, ocorreu-lhe que se Katie se casasse, ele passaria a maior parte do tempo fora da vida do beb... fora da vida de Katie.
	E voc quer ser um pai para o beb?  falou com voz controlada.
Katie e eu ainda no fizemos planos definitivos. Eu a conheci h anos, quando estudvamos na faculdade, em Los Angeles. Namoramos por algum tempo, antes de eu conseguir um emprego aqui. Quando Katie se mudou para c e abriu a Katie's Candies, ela me ligou  concluiu com um sorriso malicioso.
Grande coisa!
	Imagino que, no conhecendo mais ningum, alm da irm e do meu irmo, faria sentido telefonar para voc  Seth comentou, observando com profunda satisfao o sorriso morrer nos lbios de Tom.
O sr. Sucesso no fez nova tentativa de estabelecer conversas, o que agradou Seth, especialmente quando Tom anunciou que ia embora.
Izzy pediu que Tom lhe desse uma carona para casa, e os dois se foram.
Seth se sentou  mesa da cozinha com uma xcara de caf nas mos. Katie ocupou o lugar diante dele, bebericando seu ch de ervas.
Sentindo-se mais relaxado, ele esticou as pernas. Ao sentir o tornozelo encostar no de Katie, decidiu no mudar de posio, pois o contato lhe proporcionou uma agradvel sensao de intimidade.
	E ento? O que achou de Tom?  ela perguntou, sem erguer os olhos.
Tio ausente. Seth no conseguia tirar as palavras da cabea. Embora elas fossem verdadeiras, ao menos em parte, a situao era bem mais complicada do que uma simples relao de parentesco. Katie concordara em fazer um enorme favor ao seu irmo e, agora, Seth comeava a sentir que devia algo a ela.
	Gostou dele?  Katie insistiu.
	Eu queria gostar  ele respondeu com sinceridade.  E...
	E?
	O que h para no gostar?  Seth completou e se calou, embora seu desejo fosse gritar: "Tudo!"
Katie entrou na cozinha de trabalho e se afundou no sof florido. Fechou os olhos, atirou a cabea para trs e falou com Izzy, que embalava bombons, no balco.
	Voc no vai acreditar! Eu mesma ainda no acredito.  Sua voz soou estrangulada.
Izzy tirou as luvas e correu at o sof.
	Algum problema com o beb?
	O mdico ainda estava zangado por eu ter cancelado as consultas, depois da morte de Ryan e Karen. Os bebs esto bem. Eu  que no sei se j superei o choque.
Izzy fitou-a boquiaberta, de olhos arregalados.
	Voc disse "bebs"?
Katie exibiu os dedos na forma de um "V".
	Dois  declarou com olhos cheios de lgrimas.
 No sei se estou duplamente feliz, ou duplamente assustada.
Izzy sorriu.
	Que tal um pouquinho de cada?
As duas se abraaram, enquanto as lgrimas corriam soltas pelas faces de Katie.
	Ryan e Karen ficariam to felizes!
	Agora  Izzy falou , voc tem dois sobrinhos, ou sobrinhas, e...

	So meus  Katie corrigiu com nfase.  Ryan e Karen no esto mais aqui, e eu sou a me, agora. Tenho certeza de que seria o desejo deles... e o meu, tambm.
	Eu sei. Vai ter de entrar para um daqueles clubes de mes de gmeos!
Katie no se sentia to animada.
	E quanto ao pai?  indagou, pensativa.
A expresso de Izzy tornou-se neutra.
	Pensei que voc j tivesse decidido tudo com o bom e velho Tom.
	No tenho certeza de que Seth o aprova. Ele disse que gostou de Tom, mas quando pedi sinal verde para ir adiante com meu plano, ele me pediu alguns dias para pensar.
	E?

Captulo III

Um arrepio percorreu a espinha de Katie, e ela passou os braos em torno do corpo, desviando o olhar de Seth. Sentira desespero logo aps a morte de Ryan e Karen. Ento, ficara cheia de esperana ao saber que estava grvida. Em seguida, os planos de um casamento com Tom haviam completado sua alegria. Agora, porm, s lhe restava solido e medo do futuro.
	Katie, voc est bem?  Seth perguntou, preocupado.
Ela manteve o rosto virado para o outro lado, com medo de que as lgrimas rolassem por suas faces, caso se movesse. No queria que Seth a visse chorar, ou melhor, no queria que ele a visse.
	Estou bem. Voc pode ir embora, agora  falou com voz surpreendentemente calma.
	No quero deix-la sozinha.
Katie fechou os olhos. Sim, estava sozinha, mas o melhor seria comear a se acostumar a isso.
	No estou sozinha. Izzy est na cozinha.
Como em resposta, Izzy apareceu na porta da sala, uma das mos segurando a bolsa e a outra sobre o ventre arredondado.
	Boa noite, amigos. Vou para casa. Braxton Hicks est me deixando louca.
Em seguida, a porta se fechou atrs dela.
Katie sabia que poderia ter impedido a amiga de partir com uma simples palavra, mas sentia-se cansada demais para discutir com qualquer pessoa. Tudo o que teria de fazer seria convencer Seth a deix-la em paz.
	Braxton Hicks?  ele repetiu, confuso.  Dan e Izzy vo dar esse nome ao beb?
Foi invadido por uma profunda onda de alvio quando Katie finalmente virou-se para encar-lo, com um sorriso relutante nos lbios.
	Tolo  ela disse.  Todas as grvidas tm contraes, especialmente durante o terceiro trimestre. Essas contraes se chamam Braxton Hicks.
	Ah...
Definitivamente, havia muito o que aprender sobre gravidez: trimestres, contraes, Braxton Hicks.
	Pode ir, Seth. Ficarei bem, sozinha.
Seth passou a mo pelos cabelos. Katie ficaria sozinha naquela noite, durante toda a gravidez e, mais tarde, quando estivesse criando os bebs. Os filhos de Ryan, sobrinhos dele.
	Mas... O que vai fazer?
Ela deu de ombros.
	Viverei um dia de cada vez. No se preocupe. V para casa.
Seth deu um passo na direo da porta. Tinha mesmo de ir para o escritrio. Cada minuto que passava l confirmava as palavras de Grace. A companhia precisava dele. Ele no poderia voltar a correr o mundo to cedo.
	At lo...  comeou a se despedir, mas quando viu os olhos dela, perdidos e assombrados, parou.
No que Katie estava pensando? Estaria relembrando o adeus de Tom? Ou imaginando o futuro, quando sua barriga crescesse?
Foi ento que as prprias palavras ecoaram em sua mente: "O que quer dizer com "adeus"? Que tipo de homem abandona uma mulher em uma situao como essa?"
	Katie  chamou em tom de urgncia.  Katie, est me ouvindo?
Ela retornou  realidade lentamente, como se despertasse de um sonho. Seth teve de afastar da mente uma imagem dela sobre lenis macios.
	V para casa, Seth.
Com Ryan morto, a companhia precisava dele. Ora, e os filhos de Ryan tambm no precisavam dele? Afinal, Seth sabia, por experincia prpria, o que era crescer sem pai.
	Ainda no. Ainda temos algumas coisas a discutir.
Katie suspirou.
	Agora no, por favor.
	Tem de ser agora  ele insistiu e, antes que perdesse a coragem e dissesse a si mesmo que no tinha a menor obrigao de fazer a coisa certa, props:  Case-se comigo, Katie.
	Eu...  ela parou de falar, como se as palavras de Seth houvessem lhe provocado um grande choque.
	Diga sim.
Katie continuou a fit-lo, boquiaberta. Seth no resistiu  tentao de afagar-lhe os cabelos e, em seguida, a pele acetinada do rosto.
	No estou... entendendo  ela balbuciou, estremecendo.
	No precisa ser um casamento convencional, pois a situao no  nada convencional. Farei o possvel para ser um bom pai.
	Mas... voc... no ficar por perto. Est sempre viajando pelo mundo, cuidando dos interesses da companhia.
	A companhia precisa de mim aqui, agora. Os acionistas marcaram uma reunio para daqui a cinco semanas e tenho certeza de que vo insistir para que eu assuma o controle.
Katie ainda o fitava com olhos arregalados, os braos apertados em torno do corpo, parecendo vulnervel.
	Casar-se com Tom parecia uma atitude sensata e segura.
	No cometi nenhuma infrao de trnsito, desde que cheguei aos Estados Unidos.
	Voc no chegou h dois dias?
	Exatamente. E ainda no recebi nenhuma multa  Seth respondeu, surpreso por perceber quanto era importante que ela dissesse sim.  Acho que bati o meu recorde.
Ficou satisfeito ao notar que a tenso havia se dissipado no semblante de Katie. Tinha certeza de que se a situao fosse invertida, Ryan faria o mesmo por ele.
	Karen e Ryan...  Katie comeou.
	Certamente desejariam que seus filhos tivessem pai e me. No foi voc mesma quem disse isso?
Seth percebeu que conseguira convenc-la. O clima na sala tornou-se mais ameno, e Katie se aproximou dele, apenas um pouco. Mesmo assim, Seth sentiu a aproximao e, ento, a emoo finalmente venceu a batalha contra a razo, e ele fez o que desejara fazer desde o momento em que a vira.
Puxou-a para si em um abrao terno e suave, pois no queria assust-la. Lembrou-se de quando haviam danado juntos, anos antes.
	E ento, Katie, o que diz?
A mente de Katie girava em disparada. Minutos antes, sentia-se mais solitria do que jamais se sentira em toda sua vida. Agora, Seth lhe propunha casamento. O calor dos braos dele era reconfortante e, ao mesmo tempo, assustador. Seria cedo demais para dar uma resposta? Estaria inclinada a ceder  soluo mais fcil?
Afastou-se apenas o suficiente para fit-lo nos olhos e reconheceu de pronto a preocupao de Seth com o seu bem-estar... e dos bebs, claro. Afinal, aquelas crianas levavam o sangue dele nas veias. Ao sentir a mo dele em suas costas, oferecendo conforto e segurana, Katie deu-se conta de que era exatamente aquilo que esperava receber de um bom pai, de um bom marido. Decidiu dar um salto no escuro.
	Sim  murmurou, cheia de esperana e otimismo.  Digo sim.
Katie estava parada do outro lado da sala, olhando para Seth, ainda surpresa e ligeiramente atordoada pela seqncia dos eventos: os gmeos, a desero de Tom, o casamento com Seth.
Logo depois de aceitar a proposta, ela se libertara dos braos fortes de Seth e, agora, ambos estavam em silncio, um tanto constrangidos.
Uma coisa, porm, era certa: Katie j no se sentia solitria, nem vulnervel. O que seria impossvel sentir diante da figura mscula no meio da sala, transpirando fora e confiana. Ela pousou a mo sobre o ventre. Papai.
De repente, Katie no foi capaz de conter um bocejo. De onde surgira a sbita sonolncia? Provavelmente, de uma das criaturinhas adorveis que ela carregava dentro de si.
Seth se aproximou.
	Voc est cansada. Acho que devo ir, agora.
Ela sorriu.
	Desculpe, eu...  fico feliz por voc ir embora, antes que eu diga ou faa algo muito impetuoso.
	Eu compreendo  Seth garantiu, acariciando-lhe a face com a ponta dos dedos.
No faa isso! Cada vez que Seth a tocava, todo tipo de mpeto ardente e absolutamente indigno de uma grvida invadia a mente de Katie. Rapidamente, ela escapou do contato e se encaminhou para a porta, dizendo:
	Boa noite, ento.
Seth a seguiu.
Uma vez na porta, ela hesitou, sem saber se deveria abri-la, pois poderia parecer que o estava expulsando de sua casa. Olhou por cima do ombro a fim de estudar-lhe a expresso. E perdeu a capacidade de raciocnio ao deparar-se com os olhos verdes profundos, fixos nos seus.
	Boa noite  Katie repetiu, um tanto desesperada, como se a palavra de despedida pudesse impedi-la de admirar os ombros largos, a sombra escura da barba crescida ao longo de um dia inteiro de trabalho, os lbios sensuais e generosos...
	Boa noite  Seth finalmente replicou. Embora sua voz soasse automtica, no houve nada de automtico na maneira como seu corpo se aproximou do dela, como suas mos a seguraram pelos ombros, forando-a com a mxima gentileza a virar-se. Lentamente, sua cabea foi se inclinando, como se o tempo houvesse parado.
Katie viu os olhos verdes, o nariz reto, o queixo quadrado e, ento, seus olhos se recusaram a desviar dos lbios carnudos que se aproximavam, chegando mais perto, at tocarem os dela com suavidade.
Algum emitiu um gemido abafado. Ah, meu Deus, fui eu! Os lbios de Seth voltaram a tocar os dela e, na terceira vez, os dois se perderam em um beijo apaixonado.
Katie sentiu algo parecido a uma corrente eltrica percorrer todo o seu corpo, dizendo-lhe que aquele era um beijo bom... um beijo delicioso... um beijo arrasador. Suas mos agarraram a camisa de Seth, como se ela fosse cair caso no buscasse apoio naquele peito slido e acolhedor.
Quando ele finalmente afastou-se dos lbios dela, foi apenas para cobrir-lhe as faces de beijos e, ento, o pescoo, a orelha.
De repente, Seth interrompeu-se, ofegante.
	Boa noite  murmurou com voz rouca.
Sem voz, Katie se limitou a sorrir, fascinada pela constatao de que ele fora to afetado pelo beijo quanto ela.
Seth respirou fundo.
	Eu... no sei bem como...  balbuciou com um gesto vago, como se estivesse completamente atordoado.
Com um gesto de coragem surpreendente, ela lhe deu um tapinha no ombro e declarou:
	Eu sei. Foram os hormnios. Mulheres grvidas produzem uma quantidade enorme de hormnios.
Seth piscou e assentiu, como se estivesse arquivando tal informao. Ento, abriu a porta e saiu. Katie tratou de fech-la imediatamente.
Ufa! Ele no havia percebido.
Katie se apoiou na parede, a fim de dar uma trgua aos seus joelhos trmulos. O excesso de hormnios poderia explicar sua reao impetuosa ao beijo, mas no explicava a reao de Seth.
Atordoada, Katie saiu do edifcio moderno e nem um pouco romntico onde se situava o cartrio, como sra. Seth Cooper. A aliana ainda queimava seu dedo, como queimara no momento em que Seth a colocara ali.
Os ltimos trinta minutos haviam se passado como um desses sonhos confusos em que a pessoa se descobre no trabalho, vestindo pijama, ou a caminho de um compromisso importante, sem saber exatamente como agir.
Para tornar a situao ainda mais estranha, seu ombro mal tocava o de Seth, enquanto se encaminhavam para a rua. Quem segurava a sua mo com firmeza era Izzy.
	Estou to entusiasmada  Izzy anunciou.  Tem certeza de que no deveria ter telefonado para o seu pai e sua me?
Katie sacudiu a cabea. Seus pais no haviam se preocupado com ela durante anos, exceto em suas tentativas de us-la para magoarem um ao outro.
	No houve tempo  alegou, usando como desculpa o fato de Seth haver insistido para que o casamento fosse realizado o quanto antes.
Os trs pararam na calada  espera de Dan, que fora buscar o carro de Seth no estacionamento.
Izzy sorriu.
	O noivo ansioso  comentou com um olhar malicioso para Seth.
Katie lanou um olhar ameaador para a amiga, certa de que no fora ansiedade que levara Seth a um casamento to rpido. A menos que se tratasse de ansiedade para pr um fim ao sacrifcio.
Tentando se sentir mais segura, Katie pousou a mo no ventre. Estamos fazendo isto por vocs. Tal pensamento a ajudara a tranqilizar-se, nos ltimos dias.
Percebendo o gesto, Seth tomou a iniciativa de toc-la pela primeira vez, naquele dia, deslizando a mo por suas costas.
	Voc est bem? Katie sorriu.
	tima.
Seus olhos se encontraram, e ela reconheceu de pronto a lembrana do beijo ardente nos dele. Desviou o olhar apressada, repetindo a advertncia que fizera a si mesma com freqncia naquela semana: o casamento de convenincia com Seth no precisava de paixo para complicar as coisas.
Ao ver a Explorer de Seth virar a esquina, Izzy se colocou entre os dois, segurando-os pelo brao.
	Vamos para a nossa casa. Faremos uma festa!
Festa? Aflita, Katie olhou para Seth, que parecia to surpreso quanto ela.
	No, Izzy  ela falou depressa.
	Fao questo  Izzy insistiu, empurrando-os para o carro j estacionado.  Afinal, vo ter de nos levar para casa, de um jeito ou de outro.
Dan abriu a porta do passageiro.
	Expresso Nupcial pronto para partir!  anunciou com seu bom humor de sempre.  Todos a bordo!
Katie no pde conter um sorriso diante da alegria contagiosa do marido da amiga. At mesmo Seth pareceu menos tenso. Quem sabe, se passassem a noite na companhia de Dan e Izzy aquele "constrangimento nupcial" diminusse.
Enquanto o carro deslizava pela estrada que levava  residncia um tanto distante de Dan e Izzy, Seth tratou de abafar a tenso provocada pelo casamento como fizera nos ltimos dias: rpida e profundamente. Por enquanto, tentaria esquecer tudo o que dizia respeito ao casamento. Ora, bastaria fingir que estava apenas passando uma noite agradvel na companhia de bons amigos.
No banco traseiro, mantinha boa distncia de Katie. Ela estava linda, como sempre, com os cabelos formando aquela curva sedutora em torno do rosto e o vestido branco e simples sobre o corpo ainda elegante.
No a vira desde a noite em que lhe propusera casamento. Sobrecarregado de trabalho, s conseguira tempo para ligaes dirias, todas as tardes.
	Como vai  perguntava. Legenda: "Voc mudou de idia?"
	Tudo bem  ela respondia. Legenda: " Aceito, se voc quiser."
Assim, haviam atravessado a semana. E tudo daria certo. Seth aprenderia a ser um bom pai e... Tratou de afastar as preocupaes. Apenas um sujeito se divertindo com amigos, certo?
Izzy virou-se para trs com um sorriso para Katie.
	Bem, se no falou com seus pais, avisou algum mais sobre o seu casamento?
Katie franziu o cenho.
	Voc fala como se eu estivesse tentando esconder a verdade. Falei com Tom, ontem. Ele sabe.
	Tom?  Seth repetiu o nome, incrdulo.  Por que ligou para ele?
Katie olhou a paisagem fora da janela.
	Foi ele quem me ligou.
Uma estranha onda de calor invadiu Seth.
	Por qu?
Ela deu de ombros.
	Por acaso  ele prosseguiu, estreitando os olhos  ele mudou de idia?
Desta vez, Katie virou-se para ele com expresso irritada.
	Que tipo de mulher pensa que sou? Acha que se ele houvesse mudado de idia, eu deixaria voc na mo?
	No foi o que eu disse!  Seth retrucou, definitivamente furioso.
Agora que estavam casados, ele no queria sequer imaginar Katie como esposa de outro homem. Especialmente daquele sujeitinho arrogante!
	O que disse, ento?  ela o desafiou.
	Sim, o que disse?  Izzy interferiu em defesa da amiga.
Foi Dan quem salvou Seth da necessidade de responder.
 Chegamos!  anunciou em voz bem alta, estacionando diante da casa.
Um sino de papel branco enfeitava a porta da frente, alm de um grande "parabns" recortado em papel prateado. L dentro, a lareira estava acesa, uma garrafa de champanhe encontrava-se no balde de gelo e um bolo de dois andares, com um casal de noivos em miniatura no topo, ocupava o centro da mesa.
Seth concluiu que teriam de, ao menos, brindar, antes de poderem conversar sobre algo que no fosse o casamento. E acertou. Dan estourou o champanhe, serviu a bebida e, depois do brinde, fez um discurso desajeitado sobre o futuro e as maravilhas do casamento. Seth esvaziou seu copo de um s gole e, em seguida, recusou-se a dar bolo na boca de Katie, que se mostrou grata e aliviada.
	Vocs so muito sem graa  Izzy queixou-se.
Seth tentou desviar a conversa do assunto casamento, perguntando a Dan sua opinio sobre o campeonato de futebol. Enquanto Dan respondia entusiasmado, Seth ouviu Katie rir.
	Sem graa? No! Simplesmente, no somos tolos  ela corrigiu a amiga.  J passei por isso, lembra-se?
Interessado, Seth deixou de ouvir os lamentos de Dan sobre a aposentadoria de Joe Montana, bem como as afirmaes de que o time jamais voltaria a ser o mesmo sem o craque, para prestar ateno na conversa das mulheres.
	Ora, voc ficou furiosa por causa de um pouco de glac nos cabelos  Izzy lembrou com uma risada.  Brad at chamou voc de Branca de Neve!
Brad? Quem era Brad?
	Um pouco de glac?  Katie protestou.  Eu tinha glac nos cabelos, no vestido, no buqu... acho que at mesmo a certido de casamento ficou suja.
Dan continuou a recitar a ladainha sobre as falhas na defesa do time e da idia horrvel de fazerem jogos s segundas-feiras. Seth, porm, no ouvia uma palavra. Teria Katie sido casada, antes? Parecia que sim. E, afinal, quem era aquele tal de Brad?
Izzy soltou outra gargalhada.
	Lembro-me de Brad lambendo o glac! 
Seth no pde mais se controlar.
	Do que esto falando? De quem esto falando? Foi Dan quem respondeu:
	Futebol. Voc perguntou a minha opinio, lembra-se? E estava falando de Montana... o time nunca mais ser o mesmo...
Desanimado, Seth se desligou de Dan mais uma vez, mas as mulheres haviam mudado de assunto e, agora, discutiam uma nova receita de chocolate. Ele voltou a encarar o amigo.
	Quem  Brad?  inquiriu.
Dan parou de falar e fitou-o, confuso.
	Brad? Joga na defesa ou no ataque?
Seth cerrou os dentes, a fim de reprimir um palavro. Ento, falou em voz baixa:
	 o que estou tentando descobrir. Estou falando do Brad de Katie.
	Ah! Foi namorado de Katie, j faz algum tempo. Acho que chegaram a ficar noivos, mas ele acabou indo embora.
	Brad viajou para a ndia como mdico de uma misso religiosa  Katie esclareceu com voz calma.
Seth sentiu as faces arderem. Izzy suspirou.
	Todos ns adorvamos Brad  disse.  Eu estava me lembrando da guerra de bolo que os convidados fizeram na festa do meu casamento com
Dan. Katie tentou impedir que destrussem o bolo de vez e acabou um pouco... melada.
Seth tentou afastar a onda de calor inexplicvel que tomara conta de seu corpo, mas s conseguia pensar na frase "Todos ns adorvamos Brad." Isso queria dizer que Katie tambm adorava o sujeito?
Olhou para ela, que mantinha os olhos fixos no copo de champanhe em suas mos, e notou o sorriso triste em seus lbios.
De repente, o impacto do que fizera naquela tarde atingiu-o com fora total. Estava casado com uma mulher que tinha Toms e Brads em seu passado, que possua lembranas capazes de tornar seu sorriso triste.
Ela  uma estranha, pensou, chocado. E, pior, o que descobrira sobre ela at ento no o agradara nem um pouco.
O que no fazia o menor sentido.
Katie se acomodou no banco do passageiro, no carro de Seth, e apoiou a cabea no encosto.
	Cansada?  Seth perguntou com um sorriso, fitando-a  luz esverdeada dos controles no painel.
	Um pouco.
Haviam ficado na casa de Dan e Izzy at depois do anoitecer.
	Tem certeza de que conhece o caminho de volta para casa?  Katie perguntou.
Como ele havia bebido apenas o champanhe do brinde, horas antes, ela no tinha motivo para se preocupar com o fato de ele dirigir na estrada tortuosa.
	H somente uma estrada, certo?  ele indagou em tom zombeteiro.
	Certo e os problemas so graves quando chove muito, o que acontece pelo menos duas vezes por ano. Dan e Izzy ficaram isolados durante um fim de semana inteiro, h sete meses. Izzy est grvida de sete meses.
Seth riu.
	Seria mera coincidncia?
Katie tambm soltou uma risada e fechou os olhos.
	Eu diria que Dan e Izzy desenvolveram um carinho especial por temporais, depois disso.
Com um suspiro, ela tentou concentrar todos os pensamentos em Dan e Izzy, a fim de no pensar nos prprios sentimentos confusos. Sorriu ao se lembrar do bolo e do champanhe.
Sentindo o calor do ar-condicionado envolv-la, pensou no brinde e no discurso que Dan encerrara com uma piscadela maliciosa para Seth. Algo naquele gesto acionara uma preocupao indefinida nos recantos da mente de Katie. Ela bocejou. Havia se esquecido de tomar alguma providncia... de cuidar de alguma coisa... Bocejou de novo. O que era? A preocupao, embora difusa, recusava-se a ceder. Bocejou pela terceira vez.
O carro sacudiu, e Katie despertou subitamente. Seu corpo estava posicionado em um ngulo estranho, e sua cabea repousava na firmeza de... de... uma coxa masculina!
Ela comeou a se levantar, mas sentiu a presso da mo forte sobre seus cabelos.
	Desculpe, Bela Adormecida. Passei em um buraco. Volte a dormir.
Ora, como ela fora adormecer no colo de Seth?
Embora ele continuasse a afagar seus cabelos com gestos suaves e carinhosos, Katie se sentou. Imediatamente, seus olhos pousaram na mo esquerda de Seth, firme no volante. A aliana que ela pusera ali refletia as luzes da noite. No, no fora um sonho. Estava casada com Seth.
	Estamos quase chegando  ele informou.  Voc est bem, Bela?
Katie no pde conter um sorriso diante do apelido bobo.
	Estou bem. Apenas pronta para ir para a ca...  parou de falar, pois s ento a preocupao difusa que a incomodara antes tornou-se clara como o dia.
Casamento. Marido. Cama.

Captulo IV

Depois de estacionar o carro diante da casa de Katie, Seth permaneceu imvel. Ao que parecia, ele tambm no se sentia inclinado a abandonar o calor agradvel do interior do automvel. Aps alguns momentos de silncio e imobilidade, ele comeou a se preocupar com a possibilidade de alguma coisa estar errada. Arriscou uma carcia leve, passando a ponta do dedo pela face de Katie. Tranqilizado por sentir-lhe o calor da pele, bem como pelo suspiro que ela no pde conter, repetiu a carcia.
	Obrigada  Katie murmurou.
Pelo carinho?
	Pelo seu apoio  ela acrescentou depressa.  E por ter enfrentado a comemorao de Dan e Izzy.
Seth riu.
	E ficarei grato se voc me lembrar de nunca mais pedir a opinio de Dan sobre o campeonato de futebol.
	Ah, a est um assunto que ele discute com paixo  Katie comentou com um sorriso e, ento, como se precisasse fugir da ltima palavra, saiu do carro apressada.
Sem perder tempo, Seth a seguiu at a porta, que se encontrava trancada.
 Tenho uma cpia da chave para voc, l dentro  ela o informou.
Mas no foi o fato de no ter a chave que fez Seth parar, como tambm no foi o fato de ele estar com as mos ocupadas com suas malas e no poder ajud-la.
Seth descobriu-se petrificado diante da porta porque um noivo deveria carregar a noiva para dentro de casa, na noite de npcias.
Sentindo o pnico tomar conta de seus atos, ele largou as malas. Ganhou alguns momentos porque Katie demorou a encontrar a chave dentro da bolsa. Enquanto isso, perguntou-se o que deveria fazer. No havia lugar para tradio naquele casamento. Eram dois estranhos forados a enfrentar uma situao pelo bem dos bebs. O nico ponto que possuam em comum era uma rvore genealgica, que resultava em uma obrigao.
Katie encontrou a chave, enfiou-a na fechadura e abriu a porta. O pnico quase sufocou Seth. O que fazer?
Como se pressentisse as dvidas dele, Katie virou-se para fit-lo. A luz fraca da entrada, ele viu as leves olheiras que circundavam os olhos dela, lembrou-se do peso agradvel da cabea de Katie pousada em sua coxa... da maciez dos cabelos dela sob seus dedos.
O pnico cedeu, e Seth sentiu o corao voltar a bater com liberdade. Obedecendo a um impulso, tomou-a nos braos.
Ela arregalou os olhos.
	O que est fazendo?  inquiriu, fitando-o como se ele fosse um seqestrador.
Seth refletiu que talvez devesse explicar a ela o que estava fazendo. Porm, a situao era to incomum, que ele provavelmente no encontraria as palavras necessrias.
Indeciso, respirou fundo e sentiu o perfume de Katie entrar pelas suas narinas e provocar uma reao totalmente inesperada em seu corpo. As tradies devem ser mantidas.
Atravessou a soleira.
Bastaram mais dois passos para ele se dar conta de que estavam diante de uma questo muito delicada que no fora discutida.
	E agora?  Katie inquiriu quando ele parou no meio da sala.
	Tirou as palavras de minha boca!  Seth resmungou.
E agora? Deveria lev-la para o quarto? Coloc-la no cho, ali mesmo? Por que no haviam discutido antes os parmetros daquele casamento? Seria possvel que Katie estivesse esperando ser levada para a cama por ele? Um arrepio percorreu-lhe a espinha.
Katie franziu o cenho.
	 melhor me colocar no cho. Estou pesando uma tonelada.
	Est brincando! Voc parece uma pluma!  Seth protestou, mas obedeceu.
	Lembre-se de me dizer isso daqui alguns meses, quando dois bebs estiverem disputando o espao aqui dentro  ela comentou com um sorriso.
Seth foi invadido por uma onda de alvio. Bebs. Barriga. Felizmente, ele havia recuperado o juzo em tempo, antes de tomar alguma atitude embaraosa como, por exemplo, agarrar Katie.
Grvida. Ora, era claro que Katie no esperava nenhuma... "ateno" de seu marido. No s estava cansada, mas tambm grvida.
Seth virou-se para a porta.
	Vou apanhar minhas malas.
Foi bom sentir o peso das malas nas mos. No to bom quanto sentir o peso de Katie, mas sem dvida, bem mais seguro. Quando voltou a encar-la, ela o fitava com expresso estranha. Parecia preocupada, nervosa. A tenso fez com que ela passasse a lngua pelos lbios.
Outro arrepio percorreu a espinha de Seth. Pare de olhar para os lbios dela, ordenou a si mesmo. Vai deix-la ainda mais nervosa.
	Onde fica o meu quarto?  perguntou, pondo um fim ao silncio constrangedor.  Ponha-me em algum lugar onde eu no atrapalhe o seu descanso.
Isso mesmo! Isso deveria esclarecer a situao de uma vez por todas. A pergunta deixaria bem claro para Katie que, embora ele houvesse se mudado para a casa dela, no pretendia se mudar tambm para a cama dela.
O sbado se arrastou lentamente em meio ao constrangimento provocado pela presena de um marido que, na verdade, no passava de um estranho. Embora Katie se sentisse aliviada por ter escapado  intimidade de uma noite de npcias, a questo sobre como deveriam se comportar dali por diante continuava ocupando a sua mente.
Depois de terem se encontrado no caf da manh, pois Katie havia entrado na cozinha quando Seth devorava um prato de cereais com leite, seus caminhos haviam se cruzado apenas duas outras vezes ao longo do dia. A primeira vez fora quando Seth sara do quarto de hspedes, abandonando a pasta repleta de documentos pelo tempo necessrio para pedir por um apontador de lpis. A segunda, quando ele entrara na cozinha no exato momento em que Katie tropeava no fio que ligava seu computador porttil sobre a mesa  tomada inconvenientemente posicionada na parede.
Com as mos de Seth em seus braos, impedindo-a de cair, e aqueles olhos verdes, to prximos dos dela, Katie encontrara uma sbita dificuldade de respirar.
	Voc est bem?  ele perguntou.
Pergunta difcil. Como ela poderia estar bem, com sua vida completamente mudada?
	Sim, estou  Katie respondeu e, ao descobrir que sua voz soava rouca, corou.  E voc? Est encontrando tudo de que precisa?
	Por acaso, voc tem algum vizinho especializado em contabilidade?  Seth inquiriu com um sorriso maroto.  Estou analisando os livros de Ryan e no se pode dizer que domino o assunto.
As mos dele continuavam nos braos de Katie.
	Acha que tomamos a deciso correta?  ela perguntou de sbito, recuando um passo.
Ele retirou as mos.
	Creio que vamos precisar de algum tempo para nos acostumarmos  situao.
Dito isso, Seth desapareceu no corredor.
No domingo de manh, depois de ter considerado e refletido sobre "precisar de algum tempo para nos acostumarmos" uma dzia de vezes. Katie chegou  concluso de que Seth tinha razo. E, se pretendiam atingir um nvel razovel de convivncia, teriam de se sentir  vontade, um com o outro. Saiu da cama, determinada a passar mais tempo na companhia de Seth, a fim de pr um fim ao nervosismo que a invadia, toda vez que ele se aproximava.
Porm, ao abrir a porta do quarto, descobriu que ele se fora.
No havia o menor sinal de Seth no quarto de hspedes, em nenhum dos banheiros, no jardim, no quintal, ou na garagem. O carro dele tambm havia desaparecido.
O pnico formou um n na garganta de Katie.
	Ele vai voltar  forou-se a dizer em voz alta, surpresa por constatar quanto era importante acreditar nisso.
E Seth voltou. Menos de uma hora depois, ele entrou na cozinha, carregando duas sacolas de compras e um copo de caf.
Katie ergueu os olhos do jornal que fingira estar lendo no momento em que ouvira a porta da frente se abrir. Tentando soar casual, abriu a boca para cumpriment-lo, mas as palavras que saram de seus lbios foram:
	Pensei que voc tivesse ido embora.
	Embora?  Seth repetiu, erguendo as sobrancelhas.  S fui comprar algumas coisas de que precisava  ele explicou  e um pouco de caf. Ontem, percebi que o cheiro do caf, quando estava sendo coado, fez mal a voc.
Katie corou. Ora, ele havia se preocupado com os seus enjos!
Seth pousou a mo sobre a dela.
	No vou, simplesmente, abandonar voc, Katie.
Se, um dia, eu for embora, ser porque voc pediu que eu fosse.
Perturbada pelo contato de suas mos, Katie for-. ou um sorriso, lembrando-se de que deveria aprender a se sentir  vontade com seu marido.
	Obrigada  murmurou, retirando a mo, embora a solenidade da promessa naqueles olhos incrivelmente verdes lhe provocasse alguns arrepios indesejados.  Achei que poderamos fazer alguma coisa juntos, hoje.
Uma caminhada? Almoo em um restaurante? Ora, qualquer oportunidade de conversarem cara a cara, sobre amenidades.
	Boa idia  Seth comentou, revirando o interior das sacolas de compras.  Pode me ajudar a fazer alguns consertos por aqui.
Consertos? Ora, Katie no poderia reclamar, vendo os itens que ele retirava das sacolas: uma torneira para substituir a da pia da cozinha, que no parava de pingar, uma lmpada para o abajur da sala, pois a antiga havia queimado, uma extenso de fio eltrico, para que ela no precisasse esticar o fio do computador bem no meio da cozinha. Por outro lado, segurar e entregar ferramentas no lhe parecia a melhor maneira de conhecer melhor o marido, nem de se sentir mais  vontade na companhia dele.
Uma hora depois, o nico tipo de conversa que haviam estabelecido eram os resmungos bem-humorados de Seth sobre o pssimo estado de conservao das ferramentas de Katie, bem como alguns palavres leves durante a instalao da nova tomada eltrica.
E, depois de uma hora observando as mos fortes e msculas trabalharem e aspirando o perfume viril, os arrepios de Katie no haviam melhorado em nada.
E, depois disso, ambos murmuraram agradecimentos cordiais e Seth pediu licena, alegando que tinha de se entregar  anlise dos documentos no quarto de hspedes, de novo.
Na segunda-feira, Katie encontrou Seth acordado mais cedo do que no sbado e no domingo. Ele vestia camisa branca e cala caqui, em vez de jeans e camiseta, como nos dias anteriores. Porm, com o jornal aberto diante do rosto, ele parecia o mesmo: corts e distante.
Os saltos desordenados do corao de Katie ao v-lo tambm foram os mesmos. Subitamente atacada por intenso calor, ela arregaou as mangas da blusa.
	Bom dia  cumprimentou-o.
Seth ergueu os olhos do jornal, olhou para ela por uma breve frao de segundo.
	Oi  limitou-se a dizer.
Grande casamento!
Ora, era verdade que no se conheciam muito bem, mas Katie queria, ao menos, uma parceria, no um relacionamento de co-habitao.
Seth mudou de posio na cadeira, e Katie se viu tomada por um misto de sensaes: queria mais daquele relacionamento... queria Seth... Decidiu ignorar a carga extra de hormnios que s servia para confundi-la. Tinha de manter em mente que aquele casamento era uma convenincia que no precisava de paixo. E, se o desinteresse de Seth na noite de npcias fosse um sinal, ele sentia o mesmo.
Por outro lado, desinteresse no explicaria a reao ardente de Seth ao beijo que haviam partilhado na noite em que ele lhe propusera casamento. E, depois, haviam surgido outros sinais.
Katie virou-se de repente e surpreendeu Seth a olhar para ela. Ora, certamente no havia uma placa dizendo "Olhe para c", pregada  sua cala jeans! Ainda assim, ela suspirou, satisfeita pela ateno que conseguia despertar. Em seguida, repreendeu-se: tinha de encontrar um meio de ficar  vontade com aquele homem. Precisavam passar algum tempo juntos, para poderem se conhecer melhor.
Tratou de pensar depressa. Seth era um homem. Ela era uma cozinheira. Fcil!
	Qual  o seu prato predileto?  perguntou.
O jornal abaixou, revelando apenas os lindos olhos verdes.
	Predileto? Sucrilhos com suco de frutas.
	No estou falando do caf da manh.
Katie calculava que se preparasse o prato predileto dele para o jantar do primeiro dia de trabalho, na condio de casados, os dois poderiam passar algumas horas juntos, comendo e conversando e, quem sabe, cultivando uma boa amizade.
Seth franziu o cenho, pensativo..
	Bem, quando estou viajando, sempre carrego pacotes de salgadinhos para comer com cerveja, alm de algumas latas de salsicha.
	Salgadinhos? Salsichas?  S de pensar em tais alimentos, Katie sentiu nuseas. Respirou fundo, decidindo pensar no jantar mais tarde.  E o que gosta para sobremesa?
Para sua satisfao, Seth abaixou o jornal completamente, exibindo um sorriso largo.
	Torta de carne moda.
Katie ficou chocada.
	Voc s pode estar brincando! Torta de carne moda na sobremesa?
	Gosto  gosto  ele comentou, dando de ombros, antes de voltar ao jornal.
Irritada, Katie tentou novamente, pois no queria perder a oportunidade de estabelecer um contato mais pessoal.
	Estou pensando no que fazer para o jantar desta noite. Gostaria de comer algo em particular?
O jornal no se moveu. Seth no disse nada.
Katie ps uma fatia de po na torradeira, deu a volta na mesa e bateu de leve no papel que os separava. Aps alguns segundos, o jornal voltou a baixar.
	Gostaria de comer algo em particular no jantar?  persistiu.
Seth sacudiu a cabea.
	Nada que me ocorra, agora.
Frustrada, Katie apanhou sua torrada e se ocupou em cobri-la com gelia. Tudo bem. Pensarei em um prato delicioso. Talvez Izzy tenha alguma idia. Katie comeu a torrada.
	De qualquer maneira  Seth acrescentou, mantendo o rosto escondido atrs do jornal , no creio que eu v conseguir chegar para jantar, hoje.
	Por qu?  ela inquiriu.
Seth largou o jornal sobre a mesa e se levantou.
	Vou trabalhar at tarde... muito tarde.
	Ah...
Como os olhos deles se mantinham fixos nos lbios dela, Katie perdeu a voz.
Seth encaminhou-se para ela, sem desviar o olhar, fazendo Katie corar e, sem querer, passar a lngua pelos lbios.
	Conseguiu  ele disse, como se lamentasse algo.
	Consegui o qu?
 Limpar a gelia do canto da boca... bem aqui  ele tocou com o dedo o local mencionado.
Ento, Seth se foi, assim como mais uma oportunidade de se conhecerem melhor e se sentirem  vontade na companhia um do outro.
	Ora, tire alguma comida congelada do freezer 	Izzy sugeriu.  Deixe que ele aprenda a usar o microondas. Afinal, Seth j  bem crescidinho.
Katie suspirou e voltou a se concentrar no trabalho. As segundas-feiras eram reservadas para compras e contabilidade. Seus problemas com Seth, e as sugestes de Izzy no estavam tornando o seu dia mais fcil.
	Afinal de contas  Izzy continuou , o problema no  comida, mas sim, sexo.
Katie sacudiu a cabea.
	J disse que s quero conhec-lo melhor. Este casamento no envolve cama.
	Bobagem! Pensa que no vi o modo como ele olha para voc?
Katie apoiou o cotovelo na mesa e o queixo na mo.
	S quero um pouco mais de intimidade. No precisamos ser ntimos... como homem e mulher. Apenas uma amizade...
	No me venha com essa histria de amizade
	Izzy interrompeu, revirando os olhos.  O que vocs...  parou de falar, atendeu o telefone e estendeu-o para Katie.   o seu amigo.
	Como vai?  Seth perguntou com voz aveludada.
	Bem  Katie respondeu.  Algum problema?
	No. S queria saber como voc est.
Katie ouviu o som de um teclado de computador e imaginou Seth trabalhando ao mesmo tempo em que falava com ela.
No precisa se preocupar comigo. Izzy est aqui.
No teve enjos, hoje? J notei que eles costumam atacar por volta das dez horas da manh.
O tom preocupado provocou um sensao muito agradvel em Katie.
 Estou bem, hoje. Os enjos foram no fim de semana no voltaram. Izzy trouxe o ch de framboesa. O cheiro  ruim, mas parece funcionar.
	Ch de framboesa --- repetiu como se quisesse gravar a informao na memria.
	E voc como est?
	Bem --- Seth respondeu distrado e Katie ouviu vozes no escritrio. --- Preciso desligar agora. Cuide bem dos meus sobrinhos.
	Pode deixar.
A decepo acalmou as batidas aceleradas do corao de Katie. Seth estava preocupado com os bebs, no com ela. 
Aparentando hesitao, Seth limpou a garganta.
 Tentarei chegar em casa na hora do jantar, Katie  acrescentou.
	Bom. Talvez possamos conversar
	Isso seria timo.

Talvez possamos conversar
Katie agarrou-se a essa idia durante a manha inteira, enquanto cuidava do seu trabalho e submetia idias para o jantar  aprovao de Izzy.
Devia ter pedido a ele para trazer comida chinesa --- a amiga argumentou, mas Katie queria que naquela noite, o jantar fosse especial.
Decidiu preparar uma lasanha vegetariana cujo molho a manteve ocupada a tarde inteira para sobremesa, escolheu sorvete de baunilha feito em casa coberto com calda especial de chocolate e Amaretto, um dos maiores sucessos da Katie's Candies.
Talvez possamos conversar.
s sete horas, o jantar estava pronto e a nica tarefa restante era pensar no que ela poderia falar.
Sentou-se  mesa, arrumada de maneira casual, e se ps a brincar com a franja do guardanapo. O melhor seria adotar uma abordagem direta e perguntar a Seth quais eram as expectativas dele com relao ao casamento. Tambm diria que, a fim de fornecer uma base slida  famlia que eles dois formariam, juntamente com os bebs, ela desejava uma parceria emocional. Balanou a cabea, determinada e satisfeita com o prprio bom senso.
Katie j havia requentado a lasanha duas vezes, quando ouviu a porta da frente se abrir. Os passos de Seth no cho da sala soaram cansados. Quando ele apareceu na cozinha, tinha a gravata solta, cada sobre o peito, e os cabelos em desalinho.
Ele a fitou, sacudiu a cabea e deixou a maleta cair na cadeira.
	Voc teve tanto trabalho!  lamentou.  O cheiro est timo e a mesa, linda. Sinto muito ter chegado to tarde. Voc no deveria ter me esperado.
O estmago de Katie realizou uma de suas familiares piruetas. Mesmo exausto, Seth parecia timo.
	Concordamos em conversar, durante o jantar  lembrou-o.  Gostaria de beber alguma coisa, antes de comer?
Ele se apoiou no batente da porta e fechou os olhos.
	Estou cansado demais. Acho que s vou comer. 
Os sentidos de Katie se puseram em estado de alerta. Um homem cansado no costuma conversar.
	Que tal um pouco de leite? Cerveja?
Embora ele abrisse os olhos, sacudiu a cabea em negativa.
	Nem um V8?  Katie ofereceu, apontando para o copo sobre a mesa.   o que estou bebendo.
Dizem que  uma excelente fonte de energia.
Seth sorriu.
	Deve dar brilho aos cabelos, tambm.
Katie soltou uma risada nervosa ao perceber que ele estivera admirando os seus cabelos.
	Ah, sim... E, segundo a propaganda, deixa os dentes mais brancos e a pele mais viosa.
O sorriso de Seth adquiriu um brilho diferente.
	Se no me engano, Bela, as esposas antigas atribuam essas caractersticas a outro tipo de tratamento.
Percebendo a insinuao sexual do comentrio, Katie corou e fugiu para o fogo. Quando voltou  mesa, trouxe consigo dois pratos bem servidos de lasanha, salada e po. Seth agradeceu e prometeu que, mais tarde, cuidaria de tirar a mesa e lavar os pratos.
Katie tentou lembr-lo de seu propsito inicial.
	Podemos lavar a loua juntos, enquanto conversamos, depois do jantar.
Porm, a cada bocado de comida, Seth parecia se distanciar mais. Nem sequer olhava para ela, focalizando a ateno no prato e no garfo.
Katie comeu uma pequena poro de lasanha e, ento, se ps a brincar com a salada em seu prato. A sensao de estar sendo ignorada crescia em ritmo galopante. Ora, no haviam concordado em conversar?
	Estou comeando a pensar que seria melhor eu estar coberta de molho de tomate e ricota.
Seth largou o garfo no prato e olhou para ela com ar confuso.
	O qu?
Ela sorriu.
 Teve um dia ruim?
	Horrvel  ele respondeu, apanhou o garfo e voltou a comer.
	Que tal um pouco de parmeso ralado, em vez de batom?
	Do que est falando, afinal?
	Estou falando da conversa que teramos durante o jantar. Ao que parece, s vou conseguir a sua ateno se me transformar em massa e molho de tomate.
Desta vez, Seth pousou o garfo devagar.
 Desculpe, Katie. Estou com a cabea cheia. Sobre o que voc quer conversar?
	Eu... bem...
Grande! Agora que Katie conseguira a ateno de Seth, a covardia a impedia de discutir o casamento.
	Por que no comea me contando o que est preocupando voc?
Ele riu.
	No sei...
	Imagino que seja algo relacionado  companhia. Algo vai mal, no escritrio?
	O trabalho  a maior parte da minha preocupao. Faltam quatro semanas para a reunio de acionistas. Preciso preparar um plano de trabalho vivel at l, ou...
	Ou?
Seth passou o indicador pelo pescoo.
Um calafrio percorreu a espinha de Katie. Se a companhia deixasse de existir, o que manteria Seth por perto? O que aconteceria ao casamento deles?
	Voc acha que...  possvel perder a companhia?
	Provavelmente, no, mas se eu no dominar as tarefas de Ryan antes da reunio, poderemos enfrentar problemas.
	Eu no sabia.
	No foi  toa que Ryan e eu dividimos o trabalho como voc sabe que fizemos, todos esses anos. Sou pssimo na administrao. Ryan era timo. Agora, terei de aprender a ser muito bom para manter os negcios em alta. Afinal,  o que Ryan desejaria deixar para os filhos.
Katie pousou a mo sobre a dele.
	Voc  capaz, Seth. Tenho certeza disso.
Seth virou a mo e apertou a dela, provocando ondas de calor que subiram pelo brao de Katie, espalhando-se por todo o seu corpo. Ela passou a lngua pelos lbios. Seth desviou o olhar, mas continuou segurando sua mo.
	Sobre o que voc queria conversar?  ele perguntou.
	Eu?  Katie repetiu com voz estridente, como se os dedos de Seth apertassem suas cordas vocais, em vez de sua mo.  Eu... eu...
No momento em que seus olhos encontraram os dele, Katie no pde mais pronunciar nenhuma palavra. Imediatamente, ela decidiu que verde era a sua cor predileta.
Ele soltou sua mo com um movimento sbito.
	Podemos deixar a conversa para outra ocasio?  inquiriu e, sem esperar pela resposta, apanhou os pratos e se ps de p.  Preciso voltar ao trabalho.
A meio caminho da pia, virou-se e murmurou:
	Distrao... loucura... Como vou conseguir? Quantos meses...? Ah, meu Deus!  Com isso, girou nos calcanhares e foi cuidar da loua.
Katie ficou onde estava. 
 Seth, voc est bem?
Ele assentiu com vigor, mas continuou de costas para ela, enquanto punha os pratos na lava-loua.
	Fico bem, quando me concentro no trabalho. Vou ter de trabalhar a noite inteira e...
	Posso ajudar...
	No! V dormir. Voc est grvida. Mulheres grvidas precisam dormir.
Era como se ele conversasse consigo mesmo.
Ao que parecia, aquela no era a noite indicada para conversar sobre casamento.
Ainda sentindo o calor dos dedos de Seth em sua mo, Katie encaminhou-se lentamente para seu quarto.
No momento em que ouviu a porta do quarto de Katie se fechar, Seth correu at o telefone e discou o nmero de Dan.
	Converse comigo. Fale de futebol, do seu heri, Joe Montana... qualquer coisa.
	E voc, Seth? Qual  o problema, camarada?  Dan soou jovial, como sempre, embora um tanto surpreso.
	Fale comigo. Preciso me distrair.
	Distrair? Ora, ento, vamos falar da sua lua-de-mel. Eu pretendia esperar mais alguns dias para telefonar, mas j que voc ligou...
	Algum j lhe disse que  um homem muito cruel? Nada de lua-de-mel, por favor!
A ltima coisa que Seth queria discutir era o que no fizera com Katie. Aquela mulher o estava deixando louco. Os cabelos loiros e sedosos, o perfume suave, o modo como ela o fitara ao v-lo entrar, pouco antes...
	Cruel? Eu ajudei Izzy escolher a lingerie preta para Katie! Eu disse a ela: "Todo homem gosta de renda preta."
Seth no estava ouvindo, pois ainda pensava no sbado e no domingo, durante os quais ele evitara Katie, fingindo trabalhar, quando na verdade, lutava contra a excitao provocada pelos cabelos dela roando-lhe os ombros, pelo volume arredondado dos seios, delineados pela blusa.
	Voc gosta de renda preta, no gosta?  Seth finalmente prestou ateno no amigo.
	Do que est falando?

	Camisolas, lingerie, chame como quiser. No pense que estou tomando liberdades com sua esposa. Izzy s pediu a minha opinio sobre camisolas para noite de npcias. Queria saber a melhor cor: preto, branco ou vermelho.
	Izzy comprou uma camisola preta para Katie?  Seth inquiriu, recusando-se a imaginar a figura de Katie vestida daquela maneira.
Infelizmente, seu autocontrole era quase nulo. A voz de Dan ps fim  imagem gloriosa:
	Era o que estava na caixa que Izzy deu a ela, na sua festa de casamento. Lembra-se? Voc gostou?
Seth fechou os olhos.
	No sei do que est falando. No vi nenhuma camisola. Katie est grvida.
E ele no poderia, em hiptese alguma, esquecer aquele detalhe.
Um longo momento de silncio se fez entre os dois homens.
	Dan?
	Ah, Seth, meu amigo... Espere um minuto. Vou at a garagem.  Aps alguns instantes, Dan voltou falar:  Precisava sair de perto de Izzy, que estava prestando ateno na conversa. Estamos a ss, agora, Seth.
	Ora, que... romntico! Dan ignorou o sarcasmo.
	Seth, o que voc sabe sobre gravidez?
Seth repassou na mente toda a sua lista de informaes.
	Nove meses, ch de framboesa para enjos, contraes chamadas Braxton Hicks.
Uma risada explodiu do outro lado da linha.
	S isso?
	Acho que sim.

	Sabia que mulheres grvidas podem fazer sexo? Seth perdeu o flego.
	O que disse?
	Mulheres grvidas podem fazer sexo... at o final da gravidez. Na verdade, elas costumam ter muita vontade.
	No pode ser... Voc no est dizendo que... Mesmo em se tratando de mulheres grvidas de gmeos?
	No acredito que Izzy comprasse uma camisola para Katie se o mdico tivesse demonstrado alguma preocupao.
Seth abriu a boca, voltou a fech-la, abriu-a de novo. Ento, secou o suor da testa com a mo.
	Droga, Dan!
As risadinhas de Dan ameaaram transformar-se em gargalhadas.
	Voc realmente no sabia? Katie no mencionou...
Gargalhadas ecoaram no telefone.
Seth deixou o som invadir-lhe os poros. Por que Katie no mencionara nada daquilo? O que ela estava pensando sobre aquele casamento? Lembrou-se dela  mesa, durante o jantar, as velas iluminando-lhe os olhos azuis, tornando-a ainda mais bonita e sensual.
 Diabos, Cooper  resmungou consigo mesmo.  Voc bem que poderia ter bebido um V8!

Captulo V

Seth terminou de lavar a frma de lasanha e apurou os ouvidos. O silncio tomava conta da casa. Katie continuava no quarto, desde que haviam terminado o jantar.
Deveria conversar com ela. Com passos determinados, atravessou o corredor. Precisava explicar a ela que era totalmente ignorante sobre gravidez. To ignorante, que realmente acreditara que mulheres grvidas no podiam fazer sexo.
Parou diante da porta do quarto de Katie e respirou fundo. Era mesmo verdade o que acabara de dizer a si mesmo? Ou estivera apenas usando uma desculpa para justificar sua distncia de Katie. Ergueu a mo para bater na porta, mas meteu-a no bolso imediatamente. Ora, por que Katie no havia tocado no assunto?
A resposta era simples. Provavelmente, ela se sentia to constrangida quanto ele diante daquela situao incomum. Ou, ento, estava plenamente satisfeita com a distncia que haviam mantido at ento.
Voltou a erguer a mo, mas imobilizou-a no ar. O que ia dizer? "Desculpe-me por perguntar, mas voc queria um parceiro na cama?"
A imagem ntida de Katie vestindo uma camisola de renda preta tomou conta de sua mente. Seth voltou a enfiar a mo no bolso. Bem, se a simples idia provocava-lhe arrepios e ondas de calor, alm de lhe despertar a imaginao, no seria mais seguro deixar as coisas como estavam?
Quanto mais refletia sobre a situao, embora tivesse certeza de que sempre desejaria ser um bom pai para os filhos de Ryan, menos compreendia o que ele e Katie realmente queriam daquele casamento. Era possvel que, quanto menos eles se envolvessem um com o outro, mais fcil seria estabelecer uma vida estvel e satisfatria.
O sexo tornava as relaes complicadas. Ora, o simples fato de pensar no assunto praticamente destrura a sua concentrao, durante os ltimos dias. Alm disso, as mulheres tinham aquele pssimo hbito de confundir sexo  sentimento. Ah, se alguma feminista pudesse ler seus pensamentos, certamente contrataria um matador de aluguel!
Porm, todos sabiam que Seth era absolutamente inbil no que dizia respeito a lidar com sentimentos. Assim como o pai, toda vez que um relacionamento ameaava se tornar mais intenso, Seth batia em retirada.
E para confirmar, ele pensou com ironia, estou fazendo a mesma coisa outra vez. Olhou em volta e se descobriu na sala de jantar. Sem perceber o que fazia, havia se afastado da porta do quarto de Katie, tomando o rumo da segurana oferecida pelo quarto de hspedes e sua maleta de trabalho.
Sim, suas chances de permanecer ao lado de Katie seriam bem maiores se ele ficasse longe da cama dela. Uma vez tomada a deciso, Seth respirou fundo e abriu a maleta repleta de documentos da companhia.
Horrorizada, Katie ficou olhando fixamente para o mostrador digital da balana, no cubculo que ela chamava de sala de exerccios. Lasanha, nunca mais.
Como podia ter ganho tanto peso em to pouco tempo? Fazia apenas uma semana que comera lasanha, e Seth se encarregara de dar fim ao que sobrara.
A balana jamais exibira nmeros como aqueles... especialmente depois de trinta minutos de caminhada na esteira!
Desceu da balana e voltou a subir, os olhos fixos nos nmeros que cresciam em velocidade vertiginosa. Pela primeira vez, sentiu-se grata pela distncia existente entre ela e Seth. Uma esposa que dobrava seu peso da noite para o dia poderia ser desconcertante!
Passou a mo pelo ventre. No havia a menor dvida de que todos os quilos extras estavam bem ali. Nem mesmo o macaco de ginstica preto disfarava a protuberncia arredondada.
Seus olhos se encheram de lgrimas. Embora soubesse que deveria estar feliz por constatar que os gmeos estavam crescendo, de repente, tudo parecia to...
	Katie  Seth chamou, ao mesmo tempo em que a porta se abriu.
	Seth!
Katie se manteve de costas para ele. Tendo acordado cedo, passara na ponta dos ps diante do quarto de hspedes, planejando terminar sua sesso de exerccios antes que ele se levantasse.
	Voc est bem?  Seth perguntou com voz preocupada.
Ela continuou em cima da balana, sem coragem de encar-lo. Naquele momento, tudo o que queria era ficar sozinha.
	Sim  respondeu, furiosa por sua voz soar estrangulada.  Precisa de alguma coisa?
	Tem certeza de que est bem?
Katie no tinha uma toalha, ou uma camiseta, com que pudesse esconder o corpo que parecia estar crescendo a cada segundo. Lentamente, deslizou um dos ps para cima do mostrador da balana e, com ar casual, olhou por cima do ombro.
	J disse que sim. O que voc quer?
Em primeiro lugar, Seth precisava de um corte de cabelo. Os cabelos molhados tocavam os ombros... nus! Ora, aquilo no era justo! Ver Seth sem camisa, pela primeira vez, justamente quando ela se sentia arrasada por causa das mudanas no prprio corpo! As lgrimas voltaram a fazer seus olhos arderem. Definitivamente, no era justo!
	Katie...
	Podemos conversar mais tarde, Seth?  Depois que eu tiver comprado uma tenda para me esconder?  Ou melhor, por que no me telefona, quando chegar no escritrio?
Tentou fazer a barriga parecer menor, endireitando os ombros. No deu certo. Mais uma vez, sentiu-se grata por ter mantido seu relacionamento com Seth em nvel impessoal.
Mas, ento, ele a segurou pelos ombros, forando-a a virar-se para encar-lo.
	Qual  o problema?  inquiriu com o cenho franzido.
Katie foi obrigada a se aproximar do peito nu  sua frente, pois precisava sair de cima da balana.
Homem nenhum poderia ver aqueles nmeros aterrorizantes. Durante o movimento, manteve os olhos na altura do queixo de Seth. Descobriu que a pele dele encontrava-se arranhada, como se Seth houvesse se ferido enquanto fazia a barba. O que me faz sentir bem melhor.
	O que voc quer?  perguntou de novo, cruzando os braos sobre o estmago.
	Estou procurando por curativos.
S ento Katie percebeu que uma das mos de Seth encontrava-se envolta por uma toalha.
	Meus Deus! O que aconteceu?
Segurou-lhe o punho e retirou a toalha. O sangue cobria um corte superficial na palma da mo dele.
	Apenas um pequeno corte causado por uma lmina nova. Voc tem material de primeiros socorros em casa?
Katie voltou a pressionar a toalha sobre o ferimento e arrastou Seth para o banheiro de sua sute. Em vez de, simplesmente, entregar a ele o anti-sptico e os curativos, forou-o a sentar-se sobre o vaso sanitrio e cuidou do corte, ela mesma.
Talvez porque o perfume do xampu de Seth a agradasse.
Quando terminou o curativo, Katie teve um vislumbre de seu prprio reflexo no espelho: cabelos em desalinho, macaco preto, a barriga. Atrs de si estavam os msculos fortes e bem desenhados do corpo de Seth. No era justo! Voltou a cruzar os braos e deu um passo na direo da porta.
Seth a segurou.
	Algo est errado.
A mo dele em seu brao era quente e firme. Katie teve de lembrar a si mesma que preferia que o relacionamento entre eles continuasse existindo sobre uma base impessoal.
	No h nada errado. Voc no precisa trabalhar?
	Talvez eu esteja passando tempo demais no escritrio. Algo est errado.
Apesar de seus esforos em contrrio, Katie sentiu os olhos se encherem de lgrimas. Que vergonha! Aquele no era o melhor momento para sucumbir a uma crise de choro. Ao menos, no at Seth ter sado para mais um dia interminvel na Ends of the Earth. Virou o rosto depressa.
	Prefiro conversar por telefone... Na verdade, trata-se de algo tolo...
Seth manteve uma das mos no brao de Katie e, com a outra, segurou-lhe o queixo, forando-a a fit-lo.
	Conte-me.
	Ah, eu me sinto to tola! Trata-se do... do meu corpo. Estou comeando a adquirir formas de mulher grvida e isso me faz sentir...
Seth continuou a fit-la, impassvel.
	Sentir?  repetiu. Katie suspirou, resignada.
	Isso me faz sentir... feia, indesejvel.
Seth se levantou to depressa, que seus movimentos pareceram imperceptveis. Em um momento, ele estava sentado, segurando o brao e o queixo de Katie. No instante seguinte, estava de p, atrs dela, olhando para o espelho.
	Indesejvel?  repetiu, incrdulo.  Pois saiba que tudo o que vejo  beleza.
Uma de suas mos deslizou pelo brao de Katie, tomando-lhe a mo e pousando-a sobre o ventre protuberante. O tempo todo, ela sentia o corao dele bater contra suas costas.
	Vejo uma mulher criando vida e felicidade, dentro de seu prprio corpo.
Era exatamente o que ela precisava ouvir. Katie se deleitou com as palavras, deliciou-se com o calor do corpo dele de encontro ao seu. Porm, com medo de quebrar o encanto daquele momento, no disse nada.
Aps alguns segundos, Seth deu-lhe um tapinha no ombro e se afastou. J na porta, acrescentou:
	Indesejvel?  Ento, fitou-a com expresso estranha, quase dolorosa.  Para sua informao, Katie, grvida ou no, voc  a mulher mais sexy
que j vi.
O corao de Katie ameaou saltar para fora do peito, enquanto ela se limitava a observ-lo desaparecer.
	No  justo  sussurrou para si mesma.  No  justo!
Os tnis de Seth atingiam a calada com impacto satisfatrio. Embora j fosse meio-dia, o sol ainda no conseguira penetrar a nvoa densa que, como de costume, cobria a cidade de San Francisco.
Ele respirou fundo.
	Ah, como  bom estar correndo de novo.
Dan ofegava a seu lado.
	No acredito... que larguei... meu computador... para isso!  exclamou com dificuldade.  Mesmo depois de uma semana de exerccio, continuo to dolorido que Izzy tem de massagear meus msculos todas as noites.
Seth soltou um gemido frustrado.
	Por favor, no mencione os benefcios do casamento.
Dan sorriu.
	No  culpa minha se voc no desfruta dos seus direitos maritais.
	Podemos falar de outra coisa? Que tal futebol? Como vai o time de Oakland?
Chegaram a um cruzamento e tiveram de parar e aguardar o semforo. Aliviado, Dan parou para respirar.
	Ora, no me diga que vai continuar correndo no lugar!  exclamou, apoiando-se em um poste.
	Preciso fazer alguma coisa para liberar a energia represada.
	Ah! A verdade sempre acaba vindo  tona! Essa histria de correr no  uma questo de entrar em forma, mas sim de tirar as formas de uma certa pessoa da sua cabea!
Seth sorriu, lembrando-se de Katie como a vira naquela manh: linda, vestindo macaco de ginstica e preocupada com as mudanas provocadas pela gravidez em seu corpo. Ora, quem diria que uma barriguinha saliente poderia excit-lo tanto quanto aqueles magnficos olhos azuis?
Porm, muito mais que a beleza de Katie, era o seu interior que o cativava mais e mais, a cada dia. Seth no conseguia parar de pensar em quanto ela fora generosa no apoio que dera a Ryan e Karen, na facilidade com que decidira passar de tia  me, bem como na f que ela demonstrara na capacidade dele, Seth, de levar a companhia adiante.
	Estou vendo esse sorriso  Dan provocou.
O semforo se tornou verde para pedestres. Rapidamente, Seth escondeu o sorriso e arrastou Dan pela faixa de segurana.
	No pense que vai escapar com facilidade  o amigo persistiu.  Voc est caidinho por Katie.
Sem encontrar um motivo palpvel para mentir, Seth admitiu:
	Morar com ela est me deixando louco... frustrado... maluco... incapaz de me concentrar. Sou obrigado a trabalhar at de madrugada, todos os dias, porque no consigo manter a concentrao nos papis.
	Ora, se  assim, esquea essa histria de casamento pr-forma  Dan concluiu em voz alta  e leve a sua esposa para a cama, de uma vez!
Duas mulheres de trinta e poucos anos, roupas de trabalho e tnis especiais para caminhadas, lanaram olhares faiscantes para os dois.
Seth reprimiu uma gargalhada.
	Psiu! Assim, vamos acabar sendo presos!
Dan secou o suor da testa com a mo.
	D uma olhada no que est escrito nos seus tnis e siga o conselho: "Simplesmente, faa!"
Seth caiu na risada. O problema era que a idia de esquecer a deciso anterior e levar Katie para a cama se tornava mais tentadora a cada dia. Ou melhor, a cada hora.
	J sentiu o perfume daquela mulher?  perguntou.
A verdade era que estava comeando a sentir o perfume dela em todos os lugares. Ao chegar no escritrio, o perfume tomava conta de sua sala assim que ele abria a maleta. A noite, o mesmo perfume escapava de seu travesseiro.
	Voc precisa... tornar o seu... casamento... real  Dan declarou, ofegante novamente.
Seth estudou o amigo com ateno.
	Sabe de alguma coisa que eu deveria saber? Katie est mesmo... interessada?
Desde aquele nico beijo que haviam partilhado, ele j se perguntara centenas de vezes se a reao ardente de Katie fora mesmo mera conseqncia da superproduo de hormnios. Dan sacudiu a cabea.
	Izzy no me conta nada do que as duas conversam, mas acho que voc deve isso  sua companhia.
	O qu?
	Voc entendeu. Livre-se da tenso e voltar a dispor de cem por cento de sua capacidade para os negcios.
	No sei, Dan...
	Pelo amor de Deus! Voc  um homem casado... na sade e na doena. Gravidez no  doena, mas tenso acumulada pode vir a ser.
Definitivamente, no existiam argumentos contra tal afirmao, Seth refletiu. Dan prosseguiu:
	Assim que voc tiver... normalizado sua vida com Katie, por assim dizer, os problemas no trabalho vo se tornar muito mais fceis de resolver.
Fazia sentido.
	Mas como vou saber se Katie est interessada?
	Converse com ela e trate de descobrir.
	 fcil falar. Voc mesmo disse que mulheres grvidas ficam mais sensveis e temperamentais que o normal.
	Verdade. Esses bebs so capazes de transformar a vida de um homem em um inferno.
	Ora, Dan! E, por acaso, a gravidez  um mar de rosas para as mulheres?
	Pois fique sabendo que elas ficam choronas, carentes e absolutamente inconstantes: ora sonolentas, ora insones, felizes, deprimidas... Mas, quando ela o encarar com aquele brilho no olhar... fique a postos!
O sorriso feliz nos lbios de Dan fez Seth tomar sua deciso final. Queria sorrir daquela maneira, tambm. Queria acalentar o mesmo tipo de lembrana.
	Bem, ento, devo levar minha esposa para a cama.
Dan assentiu, satisfeito.
A idia parecia mais sensata a cada segundo.
	Devo isso  minha companhia  Seth acrescentou, convicto.
Dan fitou-o pelo canto do olho.
	A menos que esteja fazendo isso pelo seu corao. Seth aumentou a velocidade da corrida.
	Meu corao vai ficar timo com tanto exerccio!
O telefone pessoal de Katie tocou no meio da tarde. Ela havia deixado a cozinha de trabalho para apanhar um livro de receitas que deixara na cozinha de sua casa. Colocando o livro debaixo do brao, ela atendeu.
	Como voc est passando?
Katie estremeceu. Embora j estivesse se habituando aos telefonemas dirios de Seth, o som da voz dele ainda fazia sua pele arrepiar.
	Estou bem e muito ocupada. Izzy e eu estamos experimentando uma receita nova.
	J estou com gua na boca. A propsito, o pessoal do escritrio adorou as trufas que voc mandou, hoje.

	O que Grace achou? Ela sempre foi fantica por bombos de caf.
	Acho que, agora, ela prefere as trufas... mas no foi por isso que liguei.
Silncio.
Mais um arrepio sacudiu o corpo de Katie. Geralmente, os telefonemas de Seth eram breves. Aquela altura, j deveriam estar se despedindo.
O silncio se estendeu, deixando Katie com os nervos  flor da pele.
	Bem, por que ligou?
	Porque...
O telefone comercial de Katie tocou.
	Espere um momento. Vou atender a outra linha, pois Izzy est suja de chocolate at os cotovelos.
Apanhando o telefone sem fio, ela correu at a cozinha para atender o outro.
June Carver, relaes pblicas de uma das maiores escolas da cidade, precisava de uma grande quantidade de bombons para um almoo comemorativo. Katie anotou o pedido e desligou em seguida.
	Voc ainda est a?  perguntou, retomando a linha pessoal.
	Respirando  ele se limitou a responder.
Sentindo-se mais certa de que havia algo diferente naquele telefonema, Katie no sabia o que fazer, como agir.
	Bem... como vo os negcios?
	Melhores. Talvez. E por isso que estou ligando. Finalmente!

	Est me ligando para falar da companhia? No vejo no que posso ajudar, a menos que voc precise se informar sobre chocolate.
	No  isso.
O silncio voltou a reinar. Katie no conseguiu se controlar.
	Ryan ficaria feliz se o visse trabalhando tanto  falou.  Ele adorava essa companhia.
	Assim como eu. Gostvamos muito de trabalhar juntos, apesar de sermos to diferentes.
Katie sorriu ao pensar no cunhado.
	Ryan dava muita importncia  famlia.
	Eu tambm... do meu jeito.
	Desculpe. Eu no quis dizer...
	Eu sei. Durante anos, Ryan e eu fomos o nico apoio que possuamos. No quero perder o que construmos juntos. Quero passar a companhia para... os filhos de Ryan.
Os filhos de Ryan. Seth no pensava nos bebs como sendo dele, ou deles. Katie tratou de reprimir a decepo.
	Voc disse que precisava da minha ajuda? Desta vez, o silncio durou pouco.
	Eu... bem, no sei muita coisa sobre gravidez. Katie apanhou um copo do armrio e encheu-o de gua.
	Provavelmente, sei um pouco mais que voc, mas ainda no entendo o que isso pode ter a ver com os negcios. Pelo que sei, os produtos que constam dos.catlogos no so dirigidos s grvidas.
	Eu no sabia que mulheres grvidas podem fazer sexo.
Katie bateu com o copo no balco, derramando metade da gua. Sem saber o que dizer, permaneceu calada.
	Por mais ignorante que eu possa parecer, conclui que nosso casamento no poderia incluir um relacionamento fsico por voc estar grvida.
	Ah...  foi tudo o que ela conseguiu dizer.
A informao explicava muitas coisas, mas no acalmava as reviravoltas de seu estmago. E ento? O que Seth pretendia dizer a seguir?
	E, agora que estou melhor informado  ele prosseguiu , achei que, talvez... Que tal conversarmos sobre isso  noite? Quero dizer, sobre o nosso
relacionamento fsico.
 Claro  Katie murmurou, apertando entre os dedos o lpis que usara para anotar o pedido de June.  Tudo bem.
Seth desligou, e Katie ficou olhando fixamente para o bloco de anotaes. At o final da tarde, teria de ajudar Izzy com a encomenda de folhas de chocolate, comprar caixinhas amarelas e fita violeta para embrulhar os bombons pedidos por June. E, tambm, teria de decidir se queria ou no ir para a cama com seu marido.
Seth olhou para o relgio e praguejou baixinho. Eram oito horas da noite. Planejara gastar uma hora na anlise do inventrio, depois do final do expediente, s cinco da tarde. Porm, trs horas haviam se passado, ele ainda no terminara o trabalho e Katie estava  sua espera.
Katie.
Fechou a maleta e apanhou as chaves antes que seus pensamentos o paralisassem. Sugerir mudanas na rotina de casados fizera sentido enquanto ele corria com Dan. E, tambm, quando conversara com Katie ao telefone. Alm disso, fazia muito sentido, levando em conta as necessidades de seu corpo.
Mas... faria sentido para Katie?
Dirigiu para casa em alta velocidade, a mente repassando diversas vezes a imagem dela naquela manh, no banheiro, cuidando do corte em sua mo e, ento, confessando os sentimentos estranhos provocados pela gravidez.
Ora, talvez aquele no fosse o melhor momento para sugerir um relacionamento ntimo. Provavelmente, ela diria no por se sentir constrangida com relao ao prprio corpo.
Ora, mas ele poderia mudar aqueles sentimentos. Claro que poderia! Suas mos deslizariam pelas curvas arredondadas, absorveriam o calor da pele macia, deixando claro para Katie quanto ele a considerava bonita e desejvel.
Percebendo que comeava a transpirar, Seth respirou fundo. V com calma, Cooper, pensou ao entrar na garagem. Primeiro, ela deve concordar.
Apesar da prpria advertncia, quando entrou em casa, seu corao batia em disparada, e todo o seu corpo apresentava os sinais inconfundveis de uma excitao prestes a fugir ao seu controle. Nervoso, passou a mo pelos cabelos. O que ela diria? Sim ou no?
Aromas apetitosos o conduziram at a cozinha. Um frango assado esperava no forno, dois pratos estavam sobre o balco e um fogo brando ardia na lareira da sala de jantar. A mesa, Katie dormia, com a cabea apoiada nos braos.
O corao de Seth se apertou, a medida que lembranas da infncia invadiam-lhe a mente.
Muitas noites parecidas haviam preenchido a sua infncia. Sua me preparando jantares para um homem que jamais chegava em tempo de com-los. Sua me, sentada diante da comida fria, esperando o marido chegar em casa. Sua me, abandonada pelo marido e, depois, abandonando Ryan e Seth para se entregar ao vazio e  tristeza que haviam tomado conta de sua vida.
Seth poderia magoar Katie tanto quanto seu pai havia magoado sua me. Ora, no podia permitir que isso acontecesse.
Ficou ali parado por um longo momento. Leve-a para a cama, sua conscincia sugeriu. Leve-a para a cama, mas no se deite com ela.
Com passos silenciosos, aproximou-se da mesa, abaixou-se e tomou-a nos braos. Katie balbuciou algo incompreensvel, mas continuou mergulhada em sono profundo, enquanto ele a levava para o quarto.
O abajur sobre a mesa-de-cabeceira estava aceso. Seth sentiu o hlito quente de Katie contra seu pescoo quando se abaixou para acomod-la na cama. Cubra-a e saia.
Tentou ignorar a velocidade crescente do sangue correndo em suas veias quando seus braos roaram nos lenis macios... da cama de Katie. Sentiu os cabelos dela de encontro ao seu rosto.
Desamarrou os tnis de Katie e tirou-os. No haveria problema em deix-la dormir de meias, cala e tnica. Mesmo porque, nada o faria despi-la.
Katie abriu os olhos sonolentos quando Seth a cobria.
	Seth  ela murmurou, confusa.
	Durma, Katie.
A porta do quarto pareceu estar a quilmetros de distncia da cama. A mo de Katie segurou o brao de Seth antes que ele pudesse se afastar.
	Peguei no sono  ela disse.  Desculpe...
	Est tudo bem. Voc precisa descansar.  E eu preciso me lembrar da primeira lio que aprendi na vida: o amor provoca sofrimento. Ele no queria ser uma fonte de sofrimento para Katie.
	Voc vai embora?  ela perguntou, ainda sonolenta.
	Vou.
Agora. Mas os ps dele no se moveram.
	D-me um beijo de boa-noite.
Ora, essa no era uma boa idia. A libido de Seth encontrava-se em estado de choque, depois de ter passado do estado de excitao para o estado de controle rgido e, ento, de volta  excitao.
De nada adiantaria tentar negar as prprias reaes.
Os dedos de Katie apertaram-lhe o punho e, embora no possussem fora de verdade, mantiveram-no preso ali, assim mesmo.
 S um  Seth finalmente consentiu, determinado a estabelecer as regras.
Seth abaixou-se, pronto a se reerguer assim que seus lbios tocassem os dela. O que no foi fcil, uma vez que sua boca encontrou o calor e a maciez da dela. Porm, a sonolncia nos olhos de Katie, bem como suas mos lnguidas nos braos dele, foraram-no a encerrar o beijo casto.
Antes de se afastar, Seth beijou-a mais uma vez, na testa.
Como havia imaginado, os olhos dela voltaram a se fechar imediatamente.
Ao alcanar a porta, ele hesitou e virou-se para observ-la. Ah, como era linda! Respirou fundo, perguntando-se se realmente acreditava que fazer amor com Katie apagaria o fogo que o consumia sem piedade.
Ainda sentindo o sabor dos lbios dela nos seus, bem como os efeitos daquele beijo por todo o corpo, Seth soube com certeza de que ir para a cama com Katie no mudaria nada. Fazer amor com ela no o faria parar de pensar nela, nem de desej-la.
Seth fechou os olhos. Se, ao lev-la para a cama estivesse encorajando sentimentos mais profundos da parte dela, ele a magoaria quando fugisse daquele envolvimento... como seu pai fizera.
E se voc passar a gostar dela, vai sofrer quando ela o deixar. O pensamento brotou espontaneamente, e Seth descartou-o de pronto. No era a felicidade dele que importava.
 No quero mago-la... nunca  murmurou baixinho, antes de apagar a luz e sair.

Captulo VI

Parada diante da mesa da cozinha de trabalho, Izzy esfregou as costas.
	Mais cinco semanas! Parece uma eternidade.
	Que tal cinco meses?  Katie falou com um sorriso.  Est ansiosa demais para esperar?
	Estou, mas Dan est mais nervoso. Como falta pouco tempo, ele no quer que eu fique sozinha.
Sozinha. A palavra ecoou na mente de Katie, provocando-lhe um aperto no peito. No fosse por Seth, ela estaria enfrentando a gravidez sozinha e teria de criar os bebs, tambm sozinha. Ora, o que importava o fato de ter de passar as noites sozinha?
A lembrana da semana anterior, quando ele a carregara nos braos at a cama e lhe dera um beijo de boa-noite provocou ondas de calor intenso que percorreram seu corpo. Katie tentou pensar em outra coisa.
No quero mago-la... nunca.
Naquela noite, as palavras de Seth haviam atravessado a cortina de sonolncia que a envolvia, penetrando sua conscincia. Desde ento, ambos haviam evitado com sucesso a questo de dormirem juntos ou no.  o que se ganha por casar-se com um estranho.
Aparentemente, Seth preferia manter o relacionamento em nvel platnico. E, uma vez que aquele casamento se realizara exclusivamente pelo bem dos gmeos, nada mais razovel.
Por outro lado, Katie sabia que Seth a desejava. O que no fazia com que ela se sentisse melhor.
	Qual  o problema? Algo errado com Seth?  Izzy inquiriu, ainda massageando as costas.
Katie desviou o olhar e apanhou do cho a caixa que continha as embalagens necessrias para o pedido de June.
	Por que no vai para casa, Izzy? Posso terminar isso sozinha.
	Temos de embalar todo o pedido de June, o que vai demorar horas.
	V para casa, Izzy  Katie insistiu. Precisava tirar Seth da cabea e, conhecendo Izzy, sabia que ele seria o assunto principal durante as horas de trabalho que teriam pela frente. Izzy franziu o cenho.
	Algo est errado entre voc e seu marido.
	Parceiro  Katie corrigiu.  Soa mais adequado  situao.
	Aquele homem...
	Vou aumentar o volume da msica, colocar a mente em ponto morto e minhas mos em alta velocidade. No quero pensar em nada agora, muito menos em Seth.
Izzy protestou mais um pouco, mas Katie finalmente a convenceu a ir embora. Absorvida pela msica alta e pela tarefa mecnica de embrulhar os bombons individualmente, descobriu a maneira perfeita de relaxar.
Quando o telefone tocou, Katie mal ouviu o rudo.
Ao verificar que se tratava de sua linha pessoal olhou para o relgio. Trs horas. Provavelmente, era Seth, querendo saber como ela estava.
Embora gostasse daquela ateno, decidiu no atender, pois o som da voz dele sempre provocava piruetas incontrolveis em seu estmago.
Quando o telefone finalmente parou de tocar, Katie foi invadida por uma onda de alvio que, infelizmente, durou poucos segundos, pois sua linha comercial comeou a tocar. Apesar de ter certeza de que era Seth, no poderia arriscar perder uma encomenda.
	Al?
	Katie, est tudo bem?  a voz de Seth soou distante, abafada pela msica.
	Sim, tudo bem. Estou muito ocupada.
	Mal consigo ouvir voc  ele se queixou.  Poderia abaixar o volume da msica?
Katie sorriu consigo mesma.
	No estou ouvindo voc muito bem. Podemos conversar mais tarde? Obrigada por ter ligado.
	Espere!
Ela tinha centenas de bombons para embalar, msica romntica para ouvir e cantar, alm de um determinado homem, bem como o desejo que sentia por ele, para esquecer.
	Quer que eu espere por voc  noite? Claro! At mais tarde.
	No desligue!
Katie no conseguiu pensar depressa em uma rima para fingir que entendera errado daquela vez.
	Preciso falar com voc  Seth acrescentou antes que ela tivesse tempo para pensar em uma rota de fuga.
Foi ento que Katie se lembrou do ch de ervas que ele preparava para ela todas as manhs, no artigo de jornal sobre educao infantil que ela encontrara aberto sobre a mesa, horas antes.
	Espere um instante. Vou desligar o som.  Com um suspiro resignado, voltou ao telefone.  Pronto. Disse que precisa falar comigo? Podemos ser rpidos? Estou mesmo muito ocupada, hoje.
	Esteve muito ocupada a semana inteira  ele resmungou.  Mal vi voc nos ltimos dias.
	Voc sai muito cedo, pela manh.
	E voc vai muito cedo para a cama,  noite.
Para evitar a sua companhia.
	Precisa de alguma coisa?  Katie perguntou em tom casual.
	Preciso saber como voc est passando.
	Os bebs vo muito bem.
	Bom. Eu...
	Preciso desligar, agora.
Quanto antes encerrasse a ligao, mais impessoal Katie conseguiria se manter.
	No desligue!
Algo no tom em que Seth fez o pedido imobilizou-a.
	Algum problema?
	Ns...
	Ns... o qu?
	Um presente foi entregue aqui, na companhia, para ns.
	Um presente?
Seth limpou a garganta, parecendo embaraado.
	E um grande pacote branco, envolto por fita prateada e endereado ao sr. e sra. Cooper.
	Ah...  Katie murmurou, sentindo as faces arderem.  Quem mandou?
	Sua me e seu pai.
	O qu? Como sabe? O que h no pacote?
	Um jarro de prata.
	No pode ser de minha me e meu pai. Eles se divorciaram h muito tempo.
	Eu sei, mas  evidente que se reuniram para enviar o presente. O carto contm uma mensagem de cada um deles.
Conhecendo seus pais, Katie concluiu que o presente fora enviado para a companhia porque "Ends of the Earth" vinha antes de "McKay", na lista telefnica.
	No deixa de ser surpreendente  murmurou.  S me lembro de ter visto os dois se reunirem para alguma coisa, quando era para descobrir uma maneira de transformar a minha vida e a de Karen em um inferno.
	No est sendo dura demais?  Seth indagou, hesitante.
A dor antiga formou um n na garganta de Katie.
	Eles deveriam ter nos colocado em primeiro lugar, mas nunca o fizeram. Sempre nos obrigaram a escolher: mame ou papai; papai ou mame.
	Houve briga pela custdia?
	Conseguiram um acordo. De domingo  noite a quarta-feira  noite, com o pai. O resto da semana, as duas irms ficavam com a me.
	Justo.
A raiva explodiu no peito de Katie.
	Muito justo. Passvamos metade da semana contando a papai o que havamos feito com mame. A outra metade era preenchida com interrogatrios de mame sobre as namoradas de papai.
	Pelo que est dizendo, no era muito... agradvel.
	"Desequilibrada"  a palavra para descrever nossa vida, ento. Alguns dias sem pai, outros sem me e, na maior parte do tempo, sem famlia.
	Ora, Katie, no tive a inteno de deix-la nervosa.
A simpatia na voz dele fez Katie se dar conta do que acabara de contar. Simples parceiros no partilhavam seus traumas de infncia.
	Desculpe a exploso. Esquea...
	 o que voc quer para os gmeos? Uma famlia?
Mais que qualquer outra coisa.
	Karen se tornou minha famlia. No quero que os filhos dela tenham menos que isso.
	Ryan tambm desejaria isso  Seth afirmou com convico.  Estou decidido a fazer o melhor que puder pelas crianas, Katie.
As palavras dele acalmaram Katie.
	Obrigada, Seth. No podemos nos esquecer de que tudo isso  um milagre.
	Milagre?
	Esta gravidez no tem nada de convencional. Os gmeos so o produto do desejo intenso de Ryan e Karen de terem filhos.
	E do amor, Katie... do seu amor.
Katie sentiu outro n se formar em sua garganta.
	Do seu tambm, Seth.  Ora, estava comeando a soar pessoal demais.  Do seu amor pelo seu irmo e pelos filhos dele  acrescentou depressa.
	Tem razo.
Desligaram.
Katie recolocou o telefone no gancho com um gesto lento. Estava ficando cada vez mais difcil permitir que Seth fizesse parte de sua vida e, ao mesmo tempo, evitar que ele lhe invadisse o corao.
Enquanto dirigia de volta para casa, naquela noite, Seth lembrava-se do telefonema que dera a Katie  tarde. Ela lhe despertava os sentimentos mais inesperados: empatia, simpatia, compreenso... laos que os uniam muito mais do que o acordo feito em funo dos bebs.
O problema era que laos eram justamente o que Seth no queria.
Ao mesmo tempo, Katie o envolvia a tal ponto, que ele se pegava a todo momento querendo fazer promessas que jamais poderia cumprir.
Estacionou na garagem e se forou a caminhar lentamente para dentro da casa. Tinha de ignorar o desejo que o queimava, destruir todas as pontes que o levassem ao corao de Katie.
Ao abrir a porta, o perfume de Katie penetrou suas narinas. Acabe com isso, Cooper. Afinal, trata-se simplesmente de mais um perfume feminino. Porm, aquele era o perfume de Katie e, de repente, Seth foi invadido por uma necessidade incontrolvel de v-la. Disse a si mesmo que, bastaria verificar como ela estava passando, para ento retomar atividades normais, como jantar e abrir sua pasta de documentos.
Katie no estava em casa. Na cozinha, Seth apanhou uma garrafa de cerveja, enquanto procurava por um bilhete. Nada. Ela no lhe deve satisfaes, Cooper.
Afinal, no fora ele o primeiro a dar as costas ao papel de marido? S lhe restava preparar um sanduche, beber o resto da cerveja e examinar os relatrios de contabilidade da companhia.
Infelizmente, o rosbife, o po integral e a alface no pareciam nem um pouco apetitosos na ausncia de Katie. Se Seth soubesse onde ela estava, ento seria capaz de se acalmar e se dedicar ao trabalho
Trabalho! Correu at a porta da cozinha e viu as luzes acesas na construo do outro lado do quintal. Ora, ela mencionara estar muito ocupada, horas antes.
Abriu a porta e atravessou o quintal escuro. Assim que se certificasse de que Katie estava bem, voltaria para dentro e trataria de trabalhar.
Envolta por uma mistura daquele perfume irresistvel e o aroma do chocolate, Katie encontrava-se sentada diante de sua mesa de trabalho, concentrada em algo que tinha nas mos.
	Ol  Seth cumprimentou-a. Ela manteve a cabea baixa.
	Ol.
Pronto! Seth j podia voltar para a casa e para os seus papis, pois estava tudo bem.
	Que cheiro gostoso!  comentou, em vez de sair.
Bem, o que ele realmente precisava era olhar para o rosto dela, antes de poder se concentrar nos documentos  sua espera. Porm, os cabelos loiros e sedosos escondiam as feies de Katie, e Seth descobriu que no enxergava muito bem a distncia.
	Passou bem o resto do dia?
	Sim  ela respondeu, virando-se para fit-lo.
 E voc?
Seth entrou na cozinha, em vez de sair.
	Voc parece cansada.
	Preciso embalar estes bombons para uma entrega, amanh. Faltam umas setenta caixinhas.
	No pode descansar um pouco?
	No. Preciso terminar hoje. Aposto que voc tambm trouxe trabalho para casa.
	Nada urgente. Posso ajud-la?
Katie sorriu. Seth se aproximou.
	Talvez voc no considere o trabalho que estou fazendo adequado a um homem  ela zombou.
Seth no estava ouvindo. Daquela distncia, podia distinguir as olheiras de Katie, o que no o agradou nem um pouco.
E gostou menos ainda do que viu sobre a mesa, ainda por fazer. Enquanto examinava a situao, observou Katie colocar um bombom em uma caixinha, fech-la com um selo da Katie's Candies e enfeit-la com fita violeta e flores minsculas.
	Acha que pode fazer algumas?  ela perguntou, cheia de dvidas.
Seth baixou os olhos para as mos, que lhe pareceram subitamente grandes demais, alm de desajeitadas.
	Claro que posso  mentiu.
Katie parecia to cansada, que ele seria capaz de plantar bananeiras, se isso a ajudasse.
Provavelmente, teria se sado melhor nas bananeiras. Aps algumas tentativas frustradas, os dois finalmente estabeleceram um plano de trabalho vivel. Seth colocava os bombons nas caixinhas, fechava-as e colava o selo. Katie se encarregava da parte mais delicada, cuidando da fita e das flores.
Em pouco tempo, Seth alcanou um ritmo automtico de trabalho e j no precisava mais se concentrar nos movimentos de suas mos. E foi ento que ele notou os respingos de chocolate na camisa de Katie.
	Ao que parece, voc deveria usar um avental.
Ela baixou os olhos para a camisa.
	Sou muito descuidada  admitiu, passando a mo pelos respingos, sem se dar conta de que ogesto fazia a camisa aderir aos seios.
Eles esto mais redondos.
Seth tentou fugir de tal pensamento, mas um homem jamais deixaria de notar um detalhe como aquele. Nas poucas semanas que passara junto de Katie, os seios dela haviam se tornado maiores. Estariam, tambm, mais sensveis?
Pare com isso, Cooper!
Afastou a cadeira da dela e se obrigou a trabalhar mais depressa.
De repente, Katie pousou a mo sobre a dele. Seth sentiu o corpo inteiro vibrar e tratou de manter os olhos fixos na caixinha em suas mos.
	Obrigada  ela murmurou.
Como ela no retirasse a mo, ele se ps a contar caixinhas. Restavam cinqenta e duas.
Katie retirou a mo e, com um movimento rpido, inclinou-se e beijou-o no rosto.
A caixinha perdeu a forma sob os dedos de Seth, e ele virou o rosto depressa. Sobressaltada, Katie se afastou. Ainda bem! Do contrrio, seus lbios teriam colado nos dela.
	Obrigada  ela repetiu  pela ajuda.
	E um prazer  ele respondeu e, com um sorriso maroto, ergueu a caixinha amassada.  Espero que tenha algumas sobressalentes.
Cometeu o erro de fixar os olhos nos dela, que pareciam mais escuros e misteriosos, por causa das olheiras. O problema era que Seth conhecia os mistrios de Katie. Estar na companhia dela diariamente, conversar por telefone, sentir-lhe o perfume... tudo isso mostrava que tipo de mulher ela era: generosa, dcil, vulnervel.
Katie respirou fundo, e Seth deixou os olhos baixarem, examinando-lhe o corpo.
E desejvel, Cooper, no se esquea disso.
	Talvez...  Ele pensou em voltar para a casa, antes que fizesse algo de que pudesse se arrepender, algo inesquecvel.
	Talvez pudssemos conversar sobre nomes para os bebs  Katie sugeriu.
Como ele se mostrasse surpreso, ela explicou:
	Para passar o tempo.
Ler o relatrio de contabilidade seria um excelente passatempo. Conversar sobre bebs, ou nomes de bebs, s serviria para estreitar ainda mais os laos entre eles.
	Eu...
	Pensei em Francis e Gabriel  ela disse.
	O qu?
	Francis e Gabriel, caso sejam meninos.
	Esses nomes so de anjos  Seth comentou, incrdulo.
Katie assentiu.
	Meus filhos no tero esse tipo de nome!
	Est bem  ela concedeu com um sorriso.  Tem alguma sugesto?
	Que tal Bart? Ou Max?
	No!
As cinqenta e duas caixinhas desapareceram de cima da mesa, depois disso. Nada de Francis, Gabriel, Bart ou Max. Jason, Stephan e Dixon foram terminantemente recusados. Os dois j comeavam a listar os nomes inaceitveis para meninas, quando terminaram o trabalho.
Sem se esquecer de que Katie tivera um dia longo e atribulado, Seth levou-a para fora da cozinha de trabalho assim que foi possvel. Quando alcanavam a porta dos fundos da casa, Katie bocejou.
	Estou exausta!  confessou.
Seth acompanhou-a at o quarto, onde ambos hesitaram diante da porta.
	Boa noite  ele falou, afastando os cabelos do rosto de Katie.
Ela estremeceu, e ele fingiu no notar.
	No discutimos os nomes de meninas  Katie lembrou.
	Nomes para bebs  Seth murmurou, sacudindo a cabea.  Quem diria que eu, um dia, me preocuparia com isso!
Katie se apoiou no batente da porta e estudou-o.
	O que esperava do seu futuro, Seth, se no queria ser pai, nem marido?
Aquele assunto no constava da lista dos prediletos de Seth, mas a presena de Katie o manteve prisioneiro, ali.
	Acho que me via... sem responsabilidades, sem razes... distante e seguro.
	Distante e seguro?  ela repetiu, franzindo o cenho.
	Eu disse isso?
No era possvel.
Katie passou a lngua pelos lbios.
	Disse.
Ora, as palavras no significavam nada. Ao menos, no significavam nada parecido ao que os lbios dela significavam para ele naquele momento.
Seth chegou mais perto e, sem pensar no que fazia, beijou-a. Katie no resistiu. Ao contrrio, retribuiu ao beijo ao mesmo tempo em que apoiava o corpo no batente da porta e puxava Seth pela camisa.
O desejo tomou conta de Seth.
Laos. Eles estavam por toda parte. Casamento, nomes para bebs, as mos de Katie puxando sua camisa, fazendo com que o peito dele pressionasse os seios dela.
	Katie  murmurou com voz rouca, quando seus lbios descolaram dos dela, para beijar-lhe o rosto e o pescoo.
Katie gemeu baixinho, emitindo um som que o enlouqueceu.
	Talvez fosse melhor voltarmos a discutir nomes para bebs  Seth sussurrou.
Ela pressionou o corpo contra o dele e, sem saber como aquilo acontecera, Seth sentiu o joelho entre as coxas dela.
Katie voltou a gemer. Seth pressionou o joelho de encontro a ela.
	Est bem  Katie replicou.  Arnold, Abel, Arquimedes.
Dessa vez, foi Seth quem gemeu e, em seguida, calou-a com um beijo apaixonado. Suas mos deslizaram por debaixo da camisa de Katie, at pousarem sobre seus seios.
Ela atirou a cabea para trs.
	Ah, Seth... No sei como dizer... Voc no vai acreditar...
Seth gostou de ouvir aquilo e intensificou suas carcias. Katie comeou a murmurar palavras desconexas.
	O que disse, querida? No entendi.
	Bertram, Bernie, Barney  ela repetiu de olhos fechados.  Preciso pensar em alguma coisa para me distrair. Ah, isto  bom demais!
Encorajado, Seth desabotoou o fecho do suti e passou a acariciar os mamilos rijos, agora sem a barreira antes imposta pela renda.
Katie emitiu um gemido alto, e ele se imobilizou.
Estou machucando voc?
	No! Ah, voc no vai acreditar...  ela repetiu. Seth percebeu o que estava fazendo. Mesmo na semi-escurido, viu as faces coradas de Katie, ouviu sua respirao ofegante. Suas carcias se tornaram mais ntimas, mais intensas, explorando os seios redondos e macios com paixo e reverncia. Katie voltou a gemer alto, mas desta vez ele reconheceu que era desejo, e no dor, que a fazia agir assim.
Sentindo o corao prestes a explodir no peito, Seth continuou a acarici-la, assistindo fascinado s transformaes no semblante de Katie,  medida que ela se aproximava do clmax.
Precisava saber do que seu toque era capaz. Com deliberao, pressionou a coxa com mais fora, mais alto, ao mesmo tempo em que sentia os mamilos tornarem cada vez mais rijos entre seus dedos.
Ento, o corpo de Katie ficou tenso e imvel por alguns segundos, para em seguida, explodir em xtase, sacudido por ondas de prazer.
Seth sentiu-lhe o calor, o tremor e foi invadido pela certeza inabalvel e, ao mesmo tempo, assustadora, de que mais um lao se fortalecera entre eles.

Captulo VII

Katie ergueu os olhos para Seth e, no mesmo instante, ele soube que ela havia reconhecido o arrependimento em suas feies. Corando, ela se encolheu de encontro  parede, fugindo assim das mos dele, que continuavam pousadas sobre seus seios. Ao mesmo tempo, desviou o olhar.
Com um suspiro, Seth recuou um passo, deixando os braos carem ao lado do corpo.
	Isso foi...
	Um erro  Katie completou depressa.
	Na verdade, a palavra que eu tinha em mente era "incrvel"  ele a corrigiu, constrangido.
O rubor tornou-se mais intenso nas faces de Katie.
	Esses hormnios...
	Absolutamente incrvel  Seth murmurou com um sorriso.
Katie cruzou os braos.
	Mas...
Ele enfiou as mos nos bolsos.
	Sim. Mas...
O tique-taque do relgio preencheu o silncio constrangedor. Katie lanou um olhar naquela direo, desejando poder fazer voltar o tempo.
	Eu estava me sentindo muito prxima de voc  falou, como se conversasse consigo mesma.  Trabalhar com voc, discutir nomes para os bebs...
	No consigo tirar da cabea a sua imagem adormecida  Seth a interrompeu.
	Do que est falando?
	Katie, eu quero... O que voc quer?
	Conhecer voc melhor.
Seth sentiu uma pontada de medo.
	No quero mago-la.
	J disse isso antes  Katie lembrou.   o que vai acontecer?
Ele ergueu a mo para acariciar-lhe a face.
	 possvel.
	 como vai acontecer?  ela insistiu.
Como ele poderia saber? Ainda no conseguia apagar da memria a imagem de Katie dormindo com a cabea apoiada na mesa da cozinha, esperando por ele.
	Quero ser um bom pai para os filhos de Ryan. Espero ser capaz. Mas, qualquer coisa alm disso...
	No quer ser um bom marido?  Katie perguntou, tensa.
Seth desviou o olhar.
	No sei se sou capaz.
Estaria ele fadado a repetir os mesmos erros do pai? O silncio voltou a tomar conta do ambiente, at que Katie suspirou e concluiu:
	Nesse caso, seremos apenas pai e me.
Seth estudou-lhe as feies, os lbios ainda corados de seus beijos. Sentiu falta daquela maciez de encontro  sua pele.
	Boa noite, Seth  Katie murmurou com um sorriso decidido, antes de virar-se para entrar no quarto.
Estou fazendo a coisa certa, Seth repetiu para si mesmo pela centsima vez. Manter aquele casamento em nvel impessoal era muito mais seguro para Katie.
Mas, sentir-se nobre e consciencioso era fcil quando ele estava no escritrio, ou se dirigindo para l, pela manh. O problema surgia em momentos como aquele, quando voltava para casa.
E, para piorar a situao, era muito provvel que encontrasse Katie. Afinal, eram dez horas da manh, no dez da noite, seu horrio costumeiro de chegar em casa. Porm, havia esquecido uma pasta importante e por ter duas reunies marcadas para aquela tarde, precisava dos documentos, bem como das anotaes que fizera.
A imagem sedutora de Katie voltou a invadir-lhe a mente. As faces coradas, os cabelos sedosos, os olhos brilhando de paixo...
Droga!
Tratou de substituir a lembrana perturbadora, por outra que tinha o poder inquestionvel de lhe devolver a sobriedade: Katie adormecida  mesa da cozinha,  sua espera.
Agora, sim!
Tal lembrana provocava-lhe um aperto no peito, alm de reforar-lhe a determinao de no faz-la sofrer.
J se encontrava perto de casa, quando avistou Katie caminhando pela calada. Parou o carro e abaixou o vidro.
	O que est fazendo?  perguntou.
	Caminhando  ela respondeu em tom seco.
	Para onde?
	Para o consultrio do meu mdico.
	Por que no pegou o carro? Onde fica o consultrio?
	O carro quebrou. O consultrio no fica muito perto daqui. Se no me apressar, chegarei atrasada.
Seth foi invadido por uma fria irracional.
	O que quer dizer com "o carro quebrou"?  inquiriu, irritado.
	Quero dizer que o carro quebrou. No funciona.
	Deveria ter telefonado para mim  ele argumentou, cada vez mais irracional.  Por que no telefonou? Onde est Izzy? Se ela no estava com voc, por que no ligou para mim?
Retomando a caminhada, Katie respondeu:
	No era necessrio.
	Entre no carro  Seth ordenou. Katie sacudiu a cabea.
	J disse que no  necessrio.
Foi a gota d'gua. Seth puxou o freio de mo e saiu do carro. Ao chegar na calada, segurou Katie pelo brao.
	Venha. Vou lhe dar uma carona  declarou com voz baixa, porm determinada.
	Seth, acredite, no  necessrio. Sei que voc est muito ocupado, e as mulheres costumam cuidar de seus carros quebrados e de si mesmas, o tempo todo.
Sem pronunciar nem mais uma palavra, Seth conduziu-a para o carro e a acomodou no banco do passageiro. Enquanto dirigia em silncio, sentiu-se consumir pela culpa. Vinha se enterrando no trabalho a ponto de fazer Katie sentir que no poderia contar com a sua ajuda.
Que grande marido ele era! Ou melhor, que grande pai para os filhos dela.
Quando chegaram ao edifcio de seis andares onde se situava o consultrio, Katie tentou sair do carro revelando pressa, mas Seth recorreu s maneiras rudes novamente. Ento, insistiu em usar o estacionamento e acompanh-la at o elevador.
Katie no queria a companhia dele.
Desde aquele momento de intimidade que haviam partilhado uma semana antes, ela fizera o possvel para se manter longe de Seth. Muito mais que um marido, ela queria um pai para os gmeos e temia que, se o pressionasse, ele fugiria dessa responsabilidade, tambm.
Por isso, tratara de manter distncia, mas a companhia dele em uma consulta mdica era to... prxima.
Uma pequena multido invadiu o elevador juntamente com Katie. Aliviada, ela acenou um adeus para Seth.
Porm, quando a porta se fechava, ele deslizou pelo vo e se colocou ao lado dela.
	O que est fazendo?  ela inquiriu, nervosa.  No precisa voltar ao trabalho?
	Preciso levar voc de volta para casa, depois da consulta. Ligarei para Grace e avisarei que no tenho hora para chegar, hoje.
Uma vez no consultrio, foram informados de que o mdico se encontrava no hospital, terminando um parto, mas que pedira para suas pacientes o aguardarem. Katie sentou-se e tentou ignorar Seth, que examinava cada detalhe da sala de espera: o aqurio, a vista das janelas, as revistas femininas sobre a mesa de centro.
Katie ergueu os olhos do livro que levara na bolsa, quando Seth finalmente se acomodou a seu lado.
	Por que no vai embora? Telefonarei para Izzy...
	Se no pde cham-la antes, por que poderia cham-la agora?  ele argumentou de cenho franzido, sem tirar os olhos da revista que folheava.
	Meu Deus!
	O que foi?
Katie espiou por cima do ombro de Seth. A revista estava aberta justamente em uma seqncia de fotos que mostravam o nascimento de um beb, desde o momento em que a cabea saa de dentro da me, at o choro desesperado, cordo umbilical ainda no lugar, nas mos do mdico.
	Meu Deus!  Seth repetiu.
Invadida por sbito nervosismo, Katie estendeu a mo e virou a pgina. Pronto! L estava o beb, limpinho e devidamente embrulhado em uma linda manta, nos braos da me, que j tomara um banho e vestira um robe aveludado.
	Espere  Seth protestou e voltou  pgina anterior.  Meu Deus!
Katie desejou que ele parasse de dizer aquilo. Desejou saber se a expresso queria dizer que ele estava fascinado ou horrorizado.
	Katie Cooper  a enfermeira anunciou da porta da sala de exames.
Katie se levantou e, com um movimento rpido, arrancou a revista das mos de Seth.
	Vou precisar de algo para ler  explicou, guardando o livro na bolsa.
Se pretendia contar com a cooperao de Seth, o melhor seria manter os detalhes mais ntimos e embaraosos sobre bebs e seu nascimento para si mesma. Ao menos, por enquanto.
	Aquele  seu marido?  a enfermeira perguntou.
	Sim.
	Muito bonito  a moa elogiou com um sorriso.
	No gostaria que ele a acompanhasse?
	No!  Katie respondeu sem pensar, ao subir na balana.
A enfermeira voltou a sorrir.
	J sei! Seu marido  daqueles que espera voltar de um jogo de futebol e descobrir que algum deixou um beb prontinho, para ele levar ao parque, na primavera!
Katie forou um sorriso. Se, ao menos, tivesse a certeza de que Seth tinha planos de passear no parque, na primavera... Se pudesse, ao menos, ter a certeza de que ele ainda estaria a seu lado na primavera... Desde a conversa da semana anterior, ela comeara a duvidar disso.
Uma vez terminada a tortura da balana, a enfermeira levou Katie a outra sala de exame.
	Outra ultrassonografia?  Katie perguntou.
	Sim.  rotina. Embora ainda seja muito cedo, devo avis-la de que o dr. Simons adora tentar adivinhar o sexo dos bebs. Vai querer saber?
Katie sacudiu a cabea com veemncia.
	No. Quero que seja surpresa.
A enfermeira fez uma anotao na ficha.
	Ele no vai demorar  informou.
Como j conhecesse o significado da frase em se tratando de uma consulta com um ginecologista-obstetra, Katie se acomodou confortavelmente na mesa de exames, deixou a revista sobre a cadeira e apanhou seu livro.
Dois captulos mais tarde, a porta se abriu. O jovial dr. Simons entrou sorrindo e apertou a mo de Katie.
	Veja quem eu encontrei l fora  anunciou.
 Ele disse que quer ver os bebs.
Seth apareceu na porta com expresso hesitante.
Ah, no! Katie no o queria por perto, naquela situao, pois o clima se tornaria pessoal demais. E, da ltima vez em que ela havia se deixado envolver em tal clima, acabara nos braos dele, profundamente embaraada.
	No  necessrio  argumentou.
	Parece interessante  Seth comentou, olhando o equipamento de ultra-som.
	Espere at ver o que est se passando dentro da sra. Cooper!  o mdico comentou, animado.
Seth pareceu pregado no cho. Katie suspirou ao ver outra enfermeira entrar, empurrando-o para dentro, a fim de fechar a porta. Em seguida, a moa se aproximou para abaixar a cala de Katie o bastante para expor o ventre arredondado. Seth posicionou-se atrs dela.
Ao imaginar a viso que ele tinha de seu corpo, Katie sentiu as faces arderem.
	Bela barriguinha  ele sussurrou ao seu ouvido, ao mesmo tempo em que afagava seus cabelos.
 Gostei.
Katie voltou a corar, mas desta vez, no foi de vergonha.
	Obrigada  murmurou baixinho, sabendo que ele percebera o seu embarao e estava tentando faz-la se sentir melhor.
Arrepiou-se quando a enfermeira espalhou o gel sobre seu ventre.
	Para que serve isso?  Seth perguntou.
	Melhora a recepo da imagem  a enfermeira explicou, apontando para o vdeo.
Mais um arrepio percorreu o corpo de Katie. A sala estava fria, o gel estava frio e seus nervos,  flor da pele. Qual seria a reao de Seth ao ver os bebs pela primeira vez?
Virou-se para fit-lo.
	Por que no sai, agora? No quero que veja...
	Luz, cmera, ao!  dr. Simons anunciou. Sem tirar os olhos do rosto de Seth, Katie avaliou a reao dele  viso dos bebs. A medida que o dr. Simons mostrava no vdeo as formas difusas dos coraezinhos e pezinhos, os olhos dele brilharam, enquanto suas mos deslizavam dos cabelos de Katie para os ombros dela e, ento, para as mos. Enlaou os dedos nos dela.
O calor e a fora de Seth se irradiaram pelo brao de Katie. Ela se virou para o vdeo, sentindo o corao acelerar ao ver um pezinho se mover, depois a mozinha. Ol, meus amores. A imagem a emocionou ainda mais por ela estar partilhando aquele momento com algum, tambm ligado aos bebs.
Algum que segurava a sua mo com fora e carinho.
Quando o dr. Simons declarou que os bebs estavam timos e que a gravidez ia muito bem, Seth reforou o aperto na mo de Katie, mas sua expresso se manteve impassvel.
Katie no sabia o que suas mos enlaadas significavam. Tambm no foi capaz de interpretar as repostas monossilbicas que Seth emitia a cada comentrio do mdico. E, quando o dr. Simons finalmente desligou o vdeo, ela no compreendeu o significado do longo suspiro de Seth.
A nica coisa que sabia era que o homem que ela desejava tanto manter a distncia acabara de ver tudo o que se passava dentro de seu corpo. E tal intimidade fez com que ela tentasse erguer uma barricada em torno de seu corao.
Depois da consulta, Seth parecia no querer voltar para o trabalho. Insistiu em levar Katie para almoar e, depois, para um passeio de carro. Fez outro telefonema para Grace, mas se recusou a discutir assuntos relacionados  companhia.
Porm, silncio foi o que menos partilharam. Seth contou sobre lugares que visitara, sobre peripcias dele mesmo e de Ryan, quando eram meninos, sobre livros que lera, professores que tivera, msicas de que gostava. Katie descobriu muito mais sobre Seth em uma tarde, do que em todas as semanas que haviam vivido juntos, at ento.
Ao mesmo tempo, teve a sensao de que ele lhe escondia algo. E, sem saber porque, tinha certeza de que esse algo se relacionava aos bebs.
Por volta das quatro horas da tarde, ele entrou no estacionamento de um shopping center, dizendo que queria comprar alguns CD's, a fim de atualizar sua coleo, depois de ter passado tanto tempo fora do pas.
Porm, Seth passou por duas lojas de discos, sem parar, nem dar explicaes. A tenso tomou conta de Katie. Era evidente que ele queria algo, ou queria dizer alguma coisa a ela. Teriam os bebs se tornado reais demais para ele suportar a situao? Estaria ele pensando em abandon-la, como Tom fizera? O medo que Katie conseguira represar desde o dia em que aceitara a proposta de casamento de Seth rompeu as barreiras, ameaando afog-la.
De repente, ele agarrou sua mo e a puxou para dentro de uma loja. Katie mal teve tempo de ler o luminoso acima da porta: "Punhados de Felicidade".
	Pode escolher  ele disse.
	O qu?
Katie observou, confusa, Seth apanhar dois cobertores para bero, duas ovelhas de pelcia e dois macaces para recm-nascidos.
	Posso ajudar?  uma vendedora sorridente perguntou, aproximando-se dos dois.
Seth assentiu, entregando os produtos selecionados nas mos dela.
	Sim. Precisamos de duas peas de cada. Gmeos.
	Parabns!  a moa congratulou-os, antes de conduzi-los at o balco.
Seth virou-se para Katie.
	Por que continua a, parada?
	No sei o que devo fazer  ela confessou.
	Deve escolher artigos para os bebs  ele explicou, franzindo o cenho.
Outro arrepio percorreu a espinha de Katie. Estaria Seth comprando tudo o que os gmeos precisariam, preparando o terreno para poder partir com a conscincia tranqila?
	Ainda no me disse o que achou dos bebs  Katie murmurou, hesitante, sentindo as lgrimas queimarem seus olhos.
Seth, que tentava se decidir entre os travesseiros em forma de elefante ou em forma de hipoptamo, virou-se para fit-la.
	Voc est chorando?
	Claro que no.
Ele estendeu a mo, mas no chegou a toc-la.
	Bom, pois ainda precisamos comprar muita coisa. Quer escolher as toalhas, ou prefere que eu escolha?
Katie respirou fundo e tratou de conter as lgrimas.
	Pode deixar.
Seth assentiu e se afastou alguns passos. Ento, parou-se e voltou a encar-la.
	No se esquea das chupetas, tive a impresso de que algum estava chupando o dedo, a dentro  falou, apontando para o ventre de Katie.  Um Cooper jamais chupa o dedo!
Apesar de tudo, Katie no conteve um sorriso.
Ao sarem da loja, Seth insistiu em carregar todas as sacolas. Haviam comprado roupas, cobertores, toalhas, brinquedos, tudo em branco, amarelo-claro e verde-gua. Uma vez em casa, ele carregou tudo para o terceiro quarto, que Katie pretendia decorar para os bebs.
Seth ainda no fizera nenhum comentrio sobre a ultra-sonografia. Katie ainda se perguntava se ele havia feito aquelas compras para os bebs a fim de ter a conscincia tranqila para poder partir. Olhando para a pilha de sacolas no meio do quarto, ela quis saber a verdade.
	Muito bem  falou, apontando para as compras.  O que tudo isso significa?
Seth ergueu os olhos para fit-la, e Katie sentiu as lgrimas traioeiras ameaarem-na novamente.
	Voc est chorando  ele falou.  Por qu?
	Porque no sei o que voc est sentindo, agora que viu os bebs. No sei por que comprou essas coisas.
Seth corou e, imediatamente, abaixou-se para recolher dois bichos de pelcia que haviam escorregado para fora de uma das sacolas: um elefante e um dinossauro.
	Bem... Agora, eles so reais para mim.
	O elefante e o dinossauro?
Katie sabia muito bem que Seth no se referia aos brinquedos, mas temeu que ele pretendesse no dizer mais nada.
	Estou falando dos bebs... dos seus bebs  ele esclareceu com seriedade.
O que no dizia a Katie o que ela queria saber. Porm, antes que tivesse tempo de question-lo, ele a fitou nos olhos e se corrigiu:
	Nossos bebs.
O corao de Katie ameaou saltar para fora do peito.
	Ah, Seth!
Sem saber como, um segundo depois, Katie estava nos braos de Seth, o rosto colado a seu peito, sentindo-lhe as batidas fortes do corao.
Seth est aqui. Seth est comigo.
	Eles so lindos, no so?  perguntou com voz embargada pela emoo.
	O elefante e o dinossauro?  Seth perguntou com um sorriso.
Katie tambm sorriu.
	No, bobo. Nossos bebs. So lindos.
O sorriso se desfez nos lbios de Seth, ao mesmo tempo em que seus olhos adquiriam um tom mais profundo de verde... um tom de verde que Katie j vira antes.
	No, boba  ele sussurrou.  Voc  linda. Por dentro e por fora.

Captulo VIII

Com Katie nos braos, Seth tentou controlar as emoes caticas. Felicidade, medo, incerteza... No final, ele se viu invadido por uma nica certeza absoluta: apesar do que vira naquela manh e justamente por causa do que vira, faria amor com Katie.
Se ela o quisesse, tambm.
Os lbios, dela disseram sim, no em palavras, mas na maneira como se aproximaram dos dele, ligeiramente entreabertos.
Sem perder tempo, Seth beijou-a com suavidade, no que a princpio no passou de um roar de lbios. Embora no soubesse bem o motivo, ele queria adiar o momento de beij-la com paixo, saborear aquele contato leve e terno.
Katie fechou os olhos, e Seth pensou nos bebs que cresciam no ventre dela. Um milagre.
	Katie  murmurou.
Ainda de olhos fechados, ela sorriu, como se algo na voz dele a agradasse imensamente.
	Sim.
Sim. Um arrepio percorreu o corpo de Seth, fazendo suas mos tremerem. Cego de desejo por Katie, no pde mais resistir aos impulsos e beijou-a com ardor. Provou do calor daqueles lbios, dos seios rijos pressionados contra seu peito. Queria toc-los de novo, lev-la aos picos do prazer, como fizera antes. Ento, passou a desejar mais. Queria estar dentro de Katie, atingir o clmax junto dela.
Katie deslizou as mos pelas costas de Seth, provocando-lhe tremores intensos. Ento, acariciou-lhe o peito, antes de comear a desabotoar-lhe a camisa. Ele gemeu baixinho.
	Ruim?  ela perguntou com um sorriso.
	Bela...  ele imobilizou-lhe os dedos.  V devagar.
Ignorando o pedido, Katie abriu a camisa de Seth, deliciando-se com o contato de suas mos com o peito largo.
	Bela  Seth voltou a protestar, mas Katie colou os lbios  pele quente, levando-o a pensar que talvez ele morresse antes de conseguir fazer amor com ela.
Os lbios dela deslizaram, traando um caminho de fogo at seu pescoo. Pensando bem, talvez morrer fosse bom. Ento, Katie ergueu os olhos para fit-lo.
	Quero voc, Seth. Ora, morrer seria timo!
	Tambm quero voc, Katie.
Sentiu o tremor que percorreu o corpo dela, antes de voltar a beij-la. Mal pde se conter quando Katie emitiu um gemido abafado, cravando de leve as unhas em seu peito. Impaciente, no perdeu tempo com os botes da blusa dela, mas segurou a bainha e puxou-a para cima.
Ento, parou para admirar-lhe os seios. Embora parcialmente cobertos pelo suti, a viso o deixou atordoado. Suas mos voltaram a tremer. Katie fitou-o com expresso estranha, levando-o a um esforo sobre-humano para se controlar.
	Est tudo bem?  perguntou, ofegante.  Tem certeza?
Em vez de responder, Katie passou um dedo sobre um dos mamilos de Seth, deliciando-se ao sentir-lhe a reao ardente.
	Sim, mas... o meu corpo...  ela balbuciou.
	Seu corpo me excita, Katie. No sei como voc era antes da gravidez, mas o que vejo agora me faz sentir como se tivesse dezoito anos.
Ela sorriu.
	Dezoito?  repetiu, parecendo satisfeita consigo mesma.
Seth retribuiu o sorriso.
	Acho melhor avis-la de que isso no  necessariamente bom. Vamos ter de ir bem devagar.
Todas as dvidas de Katie se dissiparam, e ela tomou uma das mos de Seth e levou-a aos lbios.
	Diga isso aos meus hormnios  falou, beijando-lhe os dedos para, ento, mordisc-los.
Com o corao disparado, a respirao ofegante, Seth desistiu de lutar contra os prprios impulsos. No queria mais falar, nem pensar. S queria sentir a pele de Katie sob suas mos.
O fecho do suti cedeu com facilidade e, ento, l estavam eles, aqueles seios arredondados e macios, cujo sabor ele tinha de provar. Do contrrio, certamente morreria.
Devagar, foi deslizando os lbios pelo pescoo de Katie, pelas curvas sedutoras dos seios, at chegar a um mamilo.
E foi ento que ocorreu a Seth que, talvez, ele j houvesse morrido. O paraso, ou quem sabe o inferno, era um lugar onde cada fibra de seu ser ardia de desejo por Katie.
Suas carcias se tornaram mais intensas, pois os gemidos dela lhe diziam que ela queria mais daquele prazer. Enquanto beijava um seio, sua mo acariciava o outro. Seth sabia que assim, Katie encontraria a satisfao em poucos momentos, e a idia o enlouquecia ainda mais.
Porm, no era isso o que ela queria.
	Seth...  Katie murmurou em tom de urgncia.  Seth, por favor, voc tambm.  As mos dela baixaram para o cinto de Seth.  Por favor, ns dois... juntos.
Ele ergueu os olhos para fit-la.
	Gosto assim. Gosto de observar voc... de sentir o seu prazer.
	Quero o prazer para ns dois.
Ao sentir as mos dela abrirem sua cala, Seth percebeu que estava prestes a perder de vez o autocontrole.
	Vamos para o quarto, Katie.
Em vez de obedecer, Katie permaneceu onde estava, as mos ocupadas em acabar com as barreiras que os separavam, para ento toc-lo com intimidade apaixonada.
	Katie  Seth protestou, desesperado.  O quarto.
Sem interromper a explorao de suas mos, Katie colou o corpo ao dele, beijando-lhe o peito e o pescoo. Ora, ele tinha de diminuir aquele ritmo, ou ento...
	Para o quarto  repetiu, segurando as mos dela com firmeza e, arrastando-a pelo corredor.
Quando passavam pela porta do quarto dela, Katie puxou-o. Como Seth lhe lanasse um olhar confuso, ela explicou:
	Minha cama  maior.
Ele sorriu e afagou os cabelos dela.
	Mas a... proteo est no meu quarto  lembrou. Katie franziu o cenho.
	Proteo?
	Sim, proteo.

	Proteo contra o qu? Se est preocupado com a possibilidade de gravidez  os lbios dela se curvaram em um sorriso maroto ,  tarde demais.
	Sim... Bem... Claro! Acontece que nunca estive com uma mulher sem usar... proteo.
	Por aqui  Katie se limitou a dizer, puxando-o na direo da cama.
Dali por diante, tudo se transformou em beijos, carcias, desejo e paixo. Seth sabia que arrancava gemidos de Katie, pois sentia-lhes a vibrao atravs da pele dela. Porm, as batidas desesperadas de seu prprio corao impediam que seus ouvidos registrassem qualquer outro som. Em um paradoxo de urgncia e lentido, despiu-a por completo, tocando e beijando seu corpo inteiro, para ento se deixar tocar e beijar por ela.
Nem por um momento deixou de toc-la, de uma maneira ou de outra, pois se descobriu incapaz de desfazer o contato, a ligao com Katie. E, quando ela afastou as pernas, convidando-o a penetr-la com o beijo mais ardente que Seth j havia experimentado, foi com grande esforo que ele satisfez o desejo dela sem perder o controle.
Lentamente, o ritmo dos quadris de Katie foram se adequando aos dele, at que ambos passaram a cavalgar as trilhas do prazer, lado a lado, perdidos um no outro. Quando Katie explodiu em xtase, Seth ainda conseguiu pensar que jamais em sua vida sentira tamanha intimidade com uma mulher. Ento, deixou-se arrastar naquele clmax fascinante, em que no s seu corpo, mas tambm seu esprito, encontraram satisfao jamais sequer imaginada por ele.
O quarto estava mergulhado na escurido, e Katie teve a sensao de que fizera amor com Seth durante horas a fio. Passou de leve a mo pelo brao forte que a envolvia.
A respirao dele era pesada e seu hlito quente provocava arrepios na pele de Katie, mais sensvel pelo prazer que ele havia lhe proporcionado. O calor do corpo de Seth colado ao dela a fez fechar os olhos e deliciar-se com a segurana que sentia.
Obrigada, Seth. Agradeceu em silncio, pois no queria perturbar-lhe o sono. E, tambm, tinha certeza de que sua gratido no seria bem recebida por ele. Porm, fazer amor com Seth fora... especial.
Seja honesta, garota. Certo, fora mais que especial. Fora quase sagrado, como se aquele casamento houvesse finalmente adquirido um significado real. Talvez, agora, pudessem se tornar uma famlia de verdade.
Com gestos cuidadosos, virou-se. Uma vez acostumados  escurido, seus olhos puderam divisar as feies de Seth. Examinou-lhe os clios espessos, o nariz reto, a boca sensual. Seria capaz de passar a noite inteira ali, apenas admirando-lhe os traos msculos, revivendo os momentos ardentes que haviam partilhado.
Um arrepio a percorreu quando ela se lembrou das mos dele sobre sua pele. Seth sussurrara elogios ao seu ouvido, fazendo-a sentir-se bonita em sua gravidez. Enquanto olhava para ele, Katie foi invadida por uma sensao desconhecida. Seu corao disparou, sua respirao tornou-se irregular.
O que estava acontecendo? O que seu corpo estava tentando lhe dizer?
No momento em que Katie se sentiu pronta a identificar o sentimento, Seth abriu os olhos.
	No foi um sonho  ele murmurou, sonolento.
	No  Katie confirmou a constatao.  Sou eu.
	Em carne e osso  ele completou com um sorriso maroto, ao mesmo tempo em que deslizava a mo pelos quadris de Katie.
A reao dela foi imediata. Uma onda de calor varreu-lhe o corpo, e seus mamilos enrijeceram. Tentando parecer casual, ela segurou uma ponta do lenol entre os dedos e comeou a pux-lo para cima. Com o mesmo ar casual, Seth a impediu.
Ento, como se ela no pesasse mais que uma pluma, ele a posicionou sobre si.
	Seth!  Katie exclamou com um suspiro, j incapaz de disfarar o desejo que ardia dentro dela.
	D-me um beijo, Katie  ele pediu com voz rouca.
Bastaram alguns segundos para que ambos voltassem a se perder um no outro. E foi ento que Katie atingiu um novo nvel de compreenso. Pela primeira vez, todas as suas perguntas, como "Por que eu? Por que Karen e Ryan? Por que a gravidez?" fizeram um sentido maior, universal.
	Katie  a voz de Seth soou urgente , querida... estou chegando... Venha comigo... Bela..
Ento, todas as respostas que Katie estivera prestes a alcanar se desvaneceram em um oceano de prazer.
Mais tarde, foi ela quem acordou e o surpreendeu a observ-la. Seu corao se apertou dentro do peito, pois havia algo no olhar de Seth que no estivera ali desde o momento em que haviam comeado a fazer amor.
	O que foi?  Katie perguntou, olhando para o relgio.
Eram cinco horas da manh.
	Voc me assusta, quando dorme  ele respondeu em um tom que indicava dor e sofrimento.
	Por qu? Seth se afastou.
	Parece to... frgil... que eu poderia quebr-la.
	No sou to frgil, Seth. E no vou quebrar. Mas Seth j sara da cama... e do quarto.
Seth usou muitos nomes diante do espelho, sendo tolo e covarde os mais suaves. Mesmo assim, deu desculpas a Katie para justificar as duas noites que passou no sof de seu escritrio.
Ao acordar na terceira manh, sentiu o corpo todo dolorido e concluiu que merecia tal castigo. Dissera a Katie que havia perdido um dia inteiro de trabalho, quando fora lev-la ao mdico. E, tambm, era verdade que a reunio dos acionistas estava marcada para as dez horas daquela manh. Porm, no fora por causa do trabalho que ele se mantivera distante.
Fora por medo.
Quanto mais se aproximasse de Katie, mais preocupado ficava com a dor do abandono. Era o tipo de dor que, primeiro seu pai, depois sua me, haviam infligido a ele e Ryan. O tipo de dor que faria Katie sofrer.
Recusou-se a ouvir a voz da razo, que tentava alert-lo de que talvez j fosse tarde demais... para ambos.
Grace bateu na porta e, assim que o viu, deu meia-volta, com ar de piedade. Menos de meia hora depois, ela voltou com quatro xcaras grandes de caf, um pacote de pezinhos e queijo.
s nove e meia, Seth j se sentia humano de novo e, por mais surpreendente que pudesse parecer, bem preparado para a reunio com os acionistas. Sua equipe trabalhara com afinco para montar uma estratgia que Seth esperava ser capaz de satisfazer os acionistas.
Quando tomou seu lugar  mesa de reunies, deu-se conta de que gostara daquele desafio. Antes, o trabalho de Ryan era um mistrio para ele. Porm, agora que Seth conhecia e dominava as nuances da administrao, sentia verdadeira satisfao em se dedicar quela tarefa. Nem por um momento, sentira falta de suas viagens.
Seis horas mais tarde, depois de um almoo rpido providenciado por Grace, Seth descobriu-se sentado no mesmo lugar, em estado de choque.
	Deu certo, Ry  falou em voz alta para a sala vazia. Havia dispensado a equipe mais cedo, depois de ter recebido a aprovao dos acionistas.  Conseguimos!
Sentira a presena do irmo, o peso da mo de Ryan sobre seu ombro, enquanto apresentava seu plano de reorganizao, bem como algumas novas idias que pretendia pr em prtica.
	Ficaram to impressionados com o trabalho que fizemos, Ry, que o resultado foi ainda melhor do que espervamos. Eles no fazem objees quanto a Phyllis e Jared se encarregarem do trabalho que voc fazia. O que significa que posso voltar a viajar, a fim de descobrir novos produtos. Estive pensando em visitar a Islndia.
Ryan no respondeu, claro. Nem seria necessrio.
Seth sabia que o irmo detestaria a idia de ele deixar Katie. Mas ela e os bebs ainda contariam com a proteo de seu nome, no?
Seth passou a mo pelos cabelos e se levantou. Discutiria a questo com Katie e ouviria o que ela tivesse a dizer. Talvez a idia fizesse sentido para ela, tambm.
Encontrou-a na cozinha, preparando o que parecia ser um jantar para uma pessoa apenas. Sem dizer nada, ela retirou outro peito de frango do freezer.
	O que posso fazer para ajudar?  Seth perguntou, rezando para que Katie no o mandasse para o inferno.
	Prepare a salada.
O olhar gelado que ela lhe lanou no fez Seth esquecer o calor do corpo dela em seus braos. Passara mais de quarenta e oito horas sem v-la, mas pensara nela mais de quarenta e oito vezes por hora.
	A reunio com os acionistas foi tima  Seth comentou.
Katie sorriu pela primeira vez-.
	Eu sei. No agentei o suspense e telefonei para Grace. Ela j estava de sada, mas me contou que os acionistas ficaram convencidos de que a companhia est em boas mos, mesmo na ausncia de Ryan.
Seth abriu a geladeira.
	Ela lhe contou mais alguma coisa?  perguntou.
	Havia mais para eu saber?
Sem tirar a cabea da geladeira, ele respondeu com uma evasiva:
	No muito. Como foram os dois ltimos dias para voc?
	Solitrios.
Seth fechou a geladeira.
	Sinto muito  murmurou, virando-se para fit-la.  Pode me perdoar?
Katie voltou a sorrir.
	Tudo bem. Conseguiu fazer os acionistas felizes. Ser que serei capaz de fazer voc feliz?
Seth respirou fundo.
	Receio ser mais parecido com meu pai do que gostaria de ser, Katie.  Talvez conseguisse faz-la compreender.  Ele trabalhava o tempo todo. Eu mal me lembro de v-lo em casa. E, quando Ryan e eu mais precisvamos de um homem em nossas vidas, ele abandonou a ns e  minha me.
E sua me jamais se recuperara do duro golpe. Katie franziu o cenho.
	Voc no  seu pai, Seth.
 Como sabe?
Seth teve vontade de perguntar como ela poderia saber que ele no traria somente sofrimento a ela e aos bebs. Precisava dizer a Katie que no poderia ficar com ela, se no fosse capaz de lhe dar tal garantia.
	Katie, eu...
Sem coragem de continuar, ensaiou o resto da frase na mente: "Acho que o melhor a fazer  deixar voc."
De repente, Katie imobilizou-se, como se pudesse ler os pensamentos de Seth. Ento, baixou os olhos para o ventre, cobrindo-o com uma das mos.
O corao de Seth disparou.
	O que foi? Est sentindo alguma dor?
Katie voltou a fit-lo, mas agora seus lbios curvavam-se em um sorriso de deleite.
	Senti os bebs mexerem! Eu sabia que eles se moviam, pois vi no ultra-som, mas nunca tinha sentido, antes.  O sorriso tornou-se mais largo.  Algum est me chutando!
Seth no resistiu quele sorriso. Aproximou-se dela e segurou-lhe o rosto entre as mos.
	Vou precisar dar uma bronca em algum?  perguntou, incapaz de conter o sorriso que lhe brotou nos lbios.
Em vez de responder, Katie tomou-lhe uma das mos e pressionou-a contra o ventre.
	Est sentindo?
	Sim, Bela, estou  Seth mentiu.
Reprimindo o riso, Katie enlaou os dedos nos dele. Sabia que Seth estava mentindo, mas amava-o ainda mais por isso.
Amava-o ainda mais por isso. As palavras ecoaram em sua mente, ao mesmo tempo em que seu corao batia em disparada. Ah, meu Deus!
O que Katie sentira na noite em que haviam feito amor, o que tornara o ato especial, quase sagrado, fora o fato de ela am-lo. Amava Seth!
	Seth...  murmurou com voz rouca.
Ele a fitou, preocupado.
	Est sentindo dor? O movimento dos bebs provoca dor em voc?
Ela sacudiu a cabea.
	No estou sentindo dor alguma. Estou apenas... feliz.
Talvez devesse contar a ele que o amava. Talvez aquele fosse o momento certo.
	Eu gostaria de saber mais sobre gravidez  Seth resmungou, frustrado.
	Vai dar tudo certo  Katie afirmou, afastando-lhe os cabelos do rosto.  Voc vai ser um bom pai.
No mesmo instante, a tenso tomou conta de Seth. Katie sentiu a mudana.
	No  com isso que voc est preocupado, ?
Ele no respondeu.
	Quer conversar?
	No agora. Aliviada, Katie sorriu.
	Bom, porque senti a sua falta e, neste momento, h uma coisa que eu gostaria de fazer, muito mais do que conversar.
Seth continuou tenso, mas se deixou levar por Katie. Quando chegaram  porta do quarto dela, ele parou, hesitante.
	Voc no quer?  ela perguntou, subitamente nervosa.
	Muito mais do que voc imagina  ele admitiu.
	Ento, venha para a cama comigo. Quero lhe mostrar o que eu sinto.
Seth no perguntou o que era. Katie no usou palavras, mas rezou para que seu corpo contasse a ele sobre o seu amor.

Captulo IX

Izzy cortava cebolas para fazer uma salada, mas parou de repente e levou as mos s costas.
	Est com dores de novo?  Katie perguntou, preocupada.
	Sim, desde ontem. Foi por isso que fiquei to contente por voc e Seth aceitarem o convite. Estou precisando de distrao.
Assim como Katie. Uma semana havia se passado desde que ela se dera conta de que estava apaixonada por Seth, mas mantivera o sentimento em segredo. Percebendo a expresso de dor no rosto de Izzy, falou:
	Talvez fosse melhor irmos embora.
Ela e Seth haviam sido convidados para almoar e jantar na casa dos amigos.
Izzy sacudiu a cabea com veemncia.
	Por favor, fique. No vou conseguir atravessar as ltimas quatro semanas de gravidez, se no tiver algo em que pensar. Conte-me as ltimas novidades sobre voc e Seth.
Katie forou um sorriso.
	Desde que voc parou de trabalhar, muitas coisas aconteceram. Os acionistas aprovaram o plano de reorganizao de Seth. A companhia est a salvo.
	Mas, ento, por que Seth parece estar vivendo sob tortura? Vocs voltaram a se abster de sexo?
	Izzy!  Katie protestou, espiando pela janela a fim de se certificar de que Dan e Seth continuavam aparando os pinheiros no jardim.  Nossa vida sexual vai muito bem, obrigada.
Espetacular seria a palavra mais apropriada. Todas as noites, Seth tomava Katie nos braos e a amava com ternura e ardor. Porm, ela continuava sem saber o que se passava no corao dele.
Izzy interrompeu o trabalho mais uma vez.
	Voc tambm no me parece cem por cento tranqila  comentou.
	No sei o que fazer  Katie confessou.  Descobri que estou apaixonada por Seth, mas no sei se devo contar a ele.
Em vez de se mostrar surpresa, Izzy limitou-se a rir baixinho.
	Eu j sabia disso.
	Sabia? Como?
	Ora, no sou boba, Katie! Desde o incio, percebi que havia algo mais entre voc e Seth. Acha mesmo que eu a deixaria casar com um homem por quem no sentisse absolutamente nada? De jeito nenhum!
Katie corou at a raiz dos cabelos, mas no pde deixar de sorrir.
	Se  to sabichona, sra. Isabelle Hughes, o que devo fazer?
	Quer saber se deve contar a ele ou no?
	Exatamente. Tenho medo de assust-lo e afast-lo de mim. Ou faz-lo sentir a obrigao de me dizer o que no sente.
	Seth no parece ser do tipo que faz declaraes de amor por piedade.
	Tem razo  Katie admitiu.  Estou sendo covarde.
	Faz sentido  Izzy concordou, voltando a esfregar as costas.  Mesmo assim, voc vai ter de criar coragem e conversar com ele. Tem de saber o que ele sente, Katie.
Tem de saber o que ele sente. Katie agarrou-se quela idia, enquanto os dois casais faziam uma caminhada antes do almoo, pelo bosque prximo  casa. Quando Izzy se declarou cansada, dizendo que ia voltar, Katie se ofereceu para acompanh-la.
Os homens acenaram e continuaram a caminhada.
	Minha inteno foi lhe dar a chance de ficar sozinha com Seth  Izzy resmungou.  Dan poderia ter me acompanhado at em casa.
Katie olhou para o cu e estremeceu.
	Muito obrigada, mas parece que vai chover. Conversarei com ele mais tarde, quando estivermos voltando para casa.
	Voc  covarde, mas adoro sua companhia assim mesmo.
Quando chegaram em casa, Katie se deu conta de que Izzy tinha outros motivos para voltar, alm de querer deix-la sozinha com Seth. Assim que entraram, Izzy anunciou que ia se deitar um pouco.
O que era muito incomum para uma pessoa ativa como ela.
	Tem certeza de que est bem?  Katie inquiriu, desconfiada.  Quer que eu v chamar Dan?
	No, no. Por favor, no diga nada a ele. Dan tem estado histrico com a aproximao do parto e fica imaginando as coisas mais terrveis. Estou preocupada, pois acho que ele no vai agentar a presso, na sala de parto.
	E eu estou preocupada por no ter certeza de que voc vai chegar a tempo na sala de parto  Katie replicou.
	No se preocupe  Izzy falou.  S preciso descansar um pouco.
Katie acomodou-a na sute do casal, cobrindo-a com um cobertor macio e entregando-lhe o controle remoto da televiso. Quando saiu do quarto, Izzy resmungava sobre o "maldito futebol", enquanto mudava de um canal para outro.
Alguns minutos depois, uma chuva leve comeou a cair. Katie espiou pela janela e sentiu um arrepio na espinha. Onde estavam Dan e Seth? O cu estava escurecendo depressa, e a chuva se tornava mais forte a cada minuto. Katie estremeceu de novo.
Queria trazer Dan de volta para casa o quanto antes. Correu at a garagem e encontrou guarda-chuvas, capas e galochas. O mnimo que poderia fazer seria encontrar os dois no meio do caminho com alguma proteo contra a chuva.
Quando vestia sua prpria capa, ouviu vozes. Dan e Seth estavam do outro lado da parede. Com um suspiro de alvio, Katie tirou a capa.
	Mais uma vez, parabns pela aprovao dos acionistas, Seth  Dan dizia.  Eu sabia que voc conseguiria.
	Se eu tivesse sabido antes, teria feito uma poro de coisas diferentes  Seth replicou.
Katie imobilizou-se. Era evidente que os dois estavam parados sob a marquise, do lado de fora da garagem, sem a menor pressa de entrar. Talvez devesse cham-los.
Mas, que "poro de coisas" Seth teria feito diferente?
Tem de saber o que ele sente. A advertncia de Izzy voltou a ecoar na mente de Katie. Ela ficou onde estava, em silncio, os ouvidos apurados.
	O que voc teria feito diferente?  Dan inquiriu.
Obrigada, Dan. Estou lhe devendo um quilo do meu melhor chocolate.
	Ainda no contei tudo. Alis, no contei a ningum de fora da companhia  Seth respondeu.
	Do que est falando?
	Os acionistas aprovaram minha proposta para que dois executivos assumam a posio de Ryan.
	E o que isso significa?
	Significa que poderei retomar meu antigo trabalho.
Katie no conseguiu ouvir a resposta de Dan, pois seu corao batia com tamanha fora, que seus ouvidos no podiam registrar qualquer outro som. Retomar o antigo trabalho. Seth estava livre para viajar pelo mundo. Ele partiria e deixaria Katie e os bebs para trs. Ela jamais teria tudo o que planejara para os gmeos. Jamais teria o amor de sua vida.
Katie teve vontade de chorar e gritar. Gostaria de correr at Izzy e dizer  amiga que, na verdade, no era to sabichona quanto pensava.
Os homens continuavam conversando. O corao de Katie ainda batia descompassado, mas as palavras deles ainda penetravam sua mente.
	O que vai fazer?  Dan perguntou.
	Estou pensando em visitar a Islndia, mas ainda no me decidi. Antes de mais nada, preciso estar junto de Katie at o nascimento dos gmeos.  Aps uma pausa, Seth acrescentou.  Vamos mudar de assunto, sim?
Dan obedeceu e se ps a falar da chuva.
	Estou preocupado com a estrada, pois j tive mos chuvas fortes na semana passada.
Certa de que j ouvira o pior, Katie voltou para dentro da casa.
Seth tirou o casaco na varanda e entrou logo atrs de Dan. Katie foi ao encontro dos dois.
	Dan, Izzy no est se sentindo bem. Acho que voc deveria ir at o quarto.
A cor sumiu imediatamente do rosto de Dan.
	Meu Deus! Verdade? Meu Deus!
Com deliberao, Katie baixou os olhos para os ps de Dan, que pareciam pregados ao cho.
	Talvez Deus possa lev-lo at o quarto para verificar como Izzy est passando  disse.
A palidez de Dan se tornou cadavrica.
Katie agarrou-o pelo brao e puxou-o para o corredor.
	V!  ordenou.
Com movimentos parecidos aos de um rob, Dan obedeceu.
Seth tentou sorrir para Katie, mas a expresso dela se manteve tensa. Na verdade, ela se parecia com o reflexo que ele vira no espelho durante aquela semana inteira: tensa, dividida, sem saber o que fazer.
	Qual  o problema, Bela?  chamou-a pelo apelido sem pensar, mas logo percebeu que no fora boa idia.  Est preocupada com Izzy? O que ela est sentindo?
	Ela est com dor nas costas de novo, alm de muito cansada  Katie respondeu, cruzando os braos sobre o ventre, em um gesto autoprotetor.  Posso conversar com voc?
	Claro  Seth concordou, embora tivesse o pressentimento de que no ia gostar da conversa. 
	 Talvez fosse melhor voltarmos para casa antes do planejado. Dan disse que a chuva forte poder criar problemas na estrada.
Assim que ele se sentou no sof da sala, Katie se acomodou em uma poltrona e disse:
	Acho melhor eu ficar aqui, esta noite.
	Por qu? Est preocupada com Izzy?
	No, comigo.
Um arrepio gelado percorreu a espinha de Seth.
	Do que est falando?
Em vez de responder, Katie desviou o olhar. Agitado, ele se levantou.
	Vamos para casa, Katie. Izzy no est se sentindo bem, voc est nervosa, e Dan me assustou com aquela conversa sobre a chuva.
Ela sacudiu a cabea.
Seth no esperava receber aquele tipo de resposta, pois estava determinado a lev-la para casa.
	Estou falando srio  insistiu.
	Eu tambm.
Como ela no se movesse, Seth voltou a se sentar. Decidiu ouvir o que Katie tinha a dizer. Ento, trataria de convenc-la a ir embora.
	Tudo comeou quando eu era uma garotinha.
Seth suspirou. Seria possvel que Katie pretendesse desabafar seus traumas de infncia? A chuva castigava o telhado sem d.
	Desde ento, sempre acreditei que tudo teria sido perfeito se meu pai tivesse ficado conosco.
	Podemos conversar sobre isso no carro, a caminho de casa?  Seth inquiriu, impaciente.
	No. Se meu pai tivesse ficado, nada jamais poderia nos acontecer. No teramos decepes, nem preocupaes. Se tivssemos vividos juntos, na mesma casa, papai, mame, Karen e eu, nada de mau jamais nos atingiria. Como uma famlia, estaramos protegidos contra o sofrimento.  Katie ergueu os olhos para Seth.  Ainda sinto o mesmo. Acredito que se meus pais no tivessem se separado, Karen no teria morrido.
Seth reconheceu a dor profunda nos olhos dela. Teve vontade de tom-la nos braos e confort-la, mas Katie voltou a desviar o olhar.
	O que a fez mudar de idia?  ele perguntou.
	Voc, ou melhor, o lugar que dei a voc em minha vida.
	Que lugar  esse?
	Era  Katie corrigiu.  O lugar de pai, de marido. Era assim que os gmeos e eu nos tornaramos uma famlia. Precisvamos de voc para isso.
	Voc mudou de idia  Seth concluiu, sentindo a boca seca.
	Mesmo com cada papel devidamente distribudo, no se pode formar uma famlia. S agora sei disso.
Seth emitiu um som abafado, pois o n em sua garganta o impediu de falar.
	S o amor pode formar uma famlia  Katie continuou em um sussurro.  S o desejo de duas pessoas estarem juntas.  Aps uma pausa, acrescentou:  Ouvi sua conversa com Dan sobre uma possvel viagem  Islndia.
	Katie...
	Acho que deve viajar agora. No  necessrio esperar pelo nascimento dos bebs. Ficaremos bem, s ns trs.
	Katie...
	Seth, voc seria capaz de dizer, com toda honestidade, que deseja ficar?
	Isto  exatamente o que eu no queria  ele murmurou, arrasado.  No queria magoar voc, Katie.
	Eu sei. Voc  um bom sujeito.
	Prometi ficar e no costumo quebrar promessas, Katie. Ficarei com voc enquanto precisar de mim, enquanto me quiser.
Ela sorriu com tristeza.
	Sei disso, tambm, mas quero mais, Seth. Mais que obrigaes, boa vontade e responsabilidade. Voc tambm deveria querer mais da vida.
	Eu nunca desejei ter esposa e filhos. Nunca consegui imaginar esse tipo de vida para mim.
	Talvez seja por isso que no exista a menor chance de dar certo.
Seth respirou fundo, tentando afastar a dor que tomara conta de seu peito.
	O que. voc quer, Katie? O que quer que eu faa?
	Quero que siga o seu corao, Seth. Se ele diz para voc viajar para a Islndia, viaje... agora. Acho que, assim, ser mais fcil para ns dois.
	Meu pai tambm partiu, Katie... e a dor foi insuportvel. No quero fazer o mesmo com os gmeos. No quero estar com eles, para ento partir.
Ora, desde o incio, fora justamente com essa possibilidade que Seth havia se preocupado tanto. Talvez fosse mesmo melhor partir imediatamente e evitar um sofrimento maior.
Ainda assim, ele no foi capaz de expressar em palavras tais pensamentos.
O que no fez diferena, pois Katie compreendeu o seu silncio. A triste aceitao na voz dela partiu o corao de Seth.
	Ficarei aqui, com Izzy e Dan, por alguns dias.
Eles no vo se importar, e voc ter tempo de deixar a casa e pegar o seu avio.
	Eu nunca tive a inteno de magoar voc, Katie.
Ela voltou a sorrir.
	Voc me ensinou muito, Seth. Agora, sou capaz de ver a minha infncia de um ponto de vista completamente diferente, com maior clareza. Alm disso, tenho uma nova definio de famlia.
Atordoado, Seth deixou a casa depressa. Foi somente quando se viu na estrada que se deu conta de que Katie no negara o fato de ele a ter feito sofrer.
Estou tomando a atitude mais correta, Seth pensou. Ora, aquele refro j estava se tomando familiar demais. Fora correto deixar Katie se casar com outro e deixar que o sujeito adotasse os bebs. Tambm fora certo casar-se ele mesmo com Katie. E era certo ir embora, agora.
Dirigindo com cuidado sob a chuva torrencial, Seth ligou o rdio e sintonizou na transmisso de um jogo de futebol.
	Vamos l, Bears!  torceu pelo time do irmo. Ryan. O que seu irmo pensaria de sua ltima atitude?
	Eu tentei, Ryan. Juro que tentei. Voc me deixou mais um grande problema para resolver, sabia? Lembra-se da nossa vizinha, a velha sra. Richie? Sim, aquela que tinha um gramado em ladeira? Voc garantia a ela que ns dois apararamos a grama. Voc cuidava da parte plana, em torno da casa, e deixava a ladeira ngreme e repleta de pedrinhas, por minha conta.
Irritado com as lembranas, Seth segurou o volante com fora.
	Ah, sim! E voc se lembra de quando aquelas prostitutas decidiram trabalhar na esquina da Ends of the Earth? Voc prometeu  Associao de Moradores que ns nos livraramos delas. Mas foi voc quem as expulsou? Claro que no! De jeito nenhum! Deixou para o seu irmozinho a tarefa de convencer as moas a se mudarem para outra freguesia. O sangue de Seth comeou a ferver nas veias.
	Sim, Ry, voc deixou tudo por minha conta: o gramado, as prostitutas, os bebs... S que desta vez, Ry, estou dizendo no.
Um rudo novo surgiu dentro do carro. O som do rdio estava alto, Seth falava em tom de voz ainda mais alto, os limpadores de pra-brisa rangiam. Assim, ele demorou alguns segundos para reconhecer o toque de seu telefone celular.
	Al?  atendeu.
	Seth...
Era Katie, e algo no seu tom de voz deixava claro que no estava ligando para pedir a Seth que voltasse para ela.
	Algum problema?  ele inquiriu, ignorando a decepo.
Ela hesitou.
	O que aconteceu, Katie?
	Est encontrando algum problema na estrada? Algum sinal de congestionamento?
	No.
	Ns ouvimos pelo rdio que houve uma queda de barreira um pouco adiante.
	Ainda no vi nada, mas terei cuidado. Obrigado por avisar. A chuva est piorando a cada momento.
	Seth...
	Tudo bem, Katie. No se preocupe. Diga a Izzy e Dan para no se preocuparem, pois terei todo cuidado.
	Seth, ns temos um problema.
Seth aliviou a presso do p no acelerador.
	Diga a Izzy que estou diminuindo a velocidade. Dan sabe que sou bom motorista.
	Ora, no  com voc que estamos preocupados  Katie corrigiu com uma nota de ironia.  Achamos que Izzy vai ter o beb.
	O qu?
	Izzy entrou em trabalho de parto. Dan est ameaando desmaiar, ou vomitar, ou as duas coisas. Telefonamos para o mdico, e ele nos informou que houve uma queda de barreira na estrada, entre o hospital e a casa. E os helicpteros de resgate no podem voar nessa tempestade.
Seth sentiu o suor frio molhar sua testa.
	Mais alguma coisa?  inquiriu com ironia semelhante  de Katie momentos antes.
	No. Acho que eu j disse tudo.
A sua frente, Seth avistou diversas lanternas vermelhas, todas imveis. Um congestionamento.
	Muito bem, Bela. J estou em condies de confirmar as suas informaes. Uma barreira realmente caiu na estrada, e h um congestionamento enorme.

Captulo X

Com um congestionamento  frente e uma crise s suas costas, Seth pisou no freio e girou o volante.
 Agente firme, Katie  falou, antes de desligar o telefone.
Ento, completou a manobra e se afastou da barreira na estrada, voltando paia Katie.
Voltando para um parto iminente.
Segurou o volante com firmeza e acelerou at onde a chuva pesada permitia. O que vou fazer?
Vou ferver a gua, pensou, e encontrar as toalhas limpas.
Mesmo sendo um intil naquele tipo de situao, simplesmente no seria capaz conseguir seu caminho e deixar Katie e seus amigos sozinhos, diante de uma emergncia.
Estacionou o carro diante da casa de Izzy e Dan e correu na chuva at a porta. A tarde estava to escura, que parecia noite.
Como ningum atendesse suas batidas na porta, ele a abriu e entrou. No havia ningum na sala. Alarmado, Seth encaminhou-se para o corredor e notou que havia luz na sute.
No queria entrar, pois ali no era o seu lugar.
	Katie? Dan?  chamou de onde estava.
A porta do quarto se abriu. Katie apareceu e se dirigiu para ele com um leve sorriso.
	Por um momento, pensei que a ambulncia tivesse chegado  ela falou.
Em seguida, Dan saiu da sute, de olhos arregalados.
	Ah, meu Deus!  exclamou.  Voc no  mdico, , Seth?
Confuso, Seth limitou-se a fitar o amigo, boquiaberto.
	Seja bem vindo ao Pronto-Socorro do Pnico 	Katie anunciou.
Dan se aproximou e segurou Seth pelo brao.
	Precisa me tirar daqui. Tenho de ir para algum lugar.
Com alguma dificuldade, Seth forou o amigo a solt-lo.
	No agora, Dan.  Ento, virou-se para Katie.
	Como Izzy est passando?
	Bem mais calma que Dan, mas acabamos de perder contato com o mdico. As linhas telefnicas foram interrompidas.
Seth sentiu o estmago dar uma pirueta.
	Vou apanhar o celular que deixei no carro.
	Deixe que eu v buscar  Dan se ofereceu depressa e, segundos depois, j desaparecera pela porta.
	Preciso ficar com Izzy  Katie declarou.  Quer entrar e v-la? A distrao vai ajud-la a enfrentar a dor.
	No  Seth respondeu sem pensar , mas posso ferver a gua.
O sorriso de Katie no apagou as linhas de preocupao em seu semblante.
	Isso s acontece nos filmes, Seth. Por favor, entre um pouco. Estamos tentando conversar sobre banalidades, entre uma contrao e outra.
Contraes!
	No, no. No ajudarei em nada l dentro. Pode me chamar de precisar de alguma outra coisa.
Katie desapareceu no corredor.
Sem saber o que fazer, Seth foi se sentar no sof, ouvindo o vento uivar l fora. A ansiedade forou-o a se levantar em seguida. Ora, no deveria ter voltado. No precisariam de gua quente, e ele certamente no seria capaz de dar qualquer outro tipo de ajuda.
Passos apressados se aproximaram pelo corredor.
	Onde est Dan?  Katie inquiriu, assim que entrou na sala.  Izzy quer ter certeza de que ser possvel manter contato com o mdico pelo celular.
Onde estava Dan?
	Vou busc-lo.
Sem sequer se lembrar de vestir o casaco, Seth teve de forar a porta para abri-la contra o vento forte e a chuva. Encontrou Dan sentado ao volante de seu carro, de olhos fechados. Seth se acomodou no banco do passageiro.
	O que est fazendo, Dan? Elas precisam do celular.
Sem abrir os olhos, Dan estendeu-lhe o telefone.
	D-me as chaves, Seth. Preciso sair para beber uma cerveja.
	O qu?  Seth inquiriu, quase aos berros.  Sua esposa est tendo um filho, l dentro!
	No posso ajud-la. Preciso sair daqui. D-me as chaves.
	Vou lhe dar um soco no olho, se no sair j deste carro, seu idiota!  Seth ameaou com uma risada forada, na esperana de que Dan tambm estivesse brincando.
Porm, o amigo abriu os olhos e sacudiu a cabea com veemncia.
	No posso ajudar, Seth.
Uma onda de fria tomou conta de Seth.
	No vai abandonar Izzy agora, Dan  ameaou com seriedade.  Mesmo que, para isso, eu tenha de amarr-lo e arrast-lo para dentro da sua casa.
Dan abriu a porta do carro.
	Vou dar uma volta.
	No vai, no  Seth advertiu-o, segurando-o pelo brao.  Izzy precisa de voc. Tem de ficar ao lado dela.
	Deveramos contar com um mdico, enfermeiras, camas de metal...
	No momento, Izzy s pode contar com voc  Seth insistiu, abrindo a porta e arrancando o amigo de dentro do carro.  Vamos. Est na hora de cuidar de sua esposa.
Segurando Dan com firmeza, Seth conduziu-o para dentro da casa.
	V para o quarto  ordenou.
Como Dan permanecesse imvel, Seth empurrou-o at a sute. L, bateu na porta e abriu-a.
	Papai chegou  anunciou em voz baixa.
Dan atravessou a soleira e voltou a se imobilizar.
Furioso, Seth se obrigou a entrar e, segurando os ombros do amigo, levou-o at a cama.
Izzy estava recostada em uma pilha de travesseiros, o rosto muito plido.
	Desculpe  Seth murmurou, corando , mas Dan precisou de ajuda.
Katie saiu do banheiro com uma toalha mida nas mos. Depois de lanar um olhar agradecido para Seth, virou-se para Dan.
	Sente-se ali  ordenou, apontando para a cadeira ao lado da cama.  Segure a mo de Izzy.
Para surpresa de todos, Dan obedeceu.
Seth j ia saindo do quarto, quando Katie o chamou.
	Espere!
Ele ficou petrificado. Ora, ela no poderia estar querendo...
	O celular  ela lembrou.
Seth voltou a respirar. Enfiou a mo no bolso, retirou o telefone e estendeu-o para Katie. Quando os dedos dela tocaram os seus, sentiu uma corrente de eletricidade percorrer-lhe o corpo.
	Fique aqui, tambm  ela comandou.
	O qu?
	Preciso de voc, Seth  Katie sussurrou, segurando-lhe a mo.  Estou... estou com medo. No quero fazer isso sozinha, e Dan no est em condies de ajudar.
Um arrepio gelado sacudiu o corpo de Seth, mas a mo de Katie tambm estava fria. De repente, mais que tudo no mundo, ele precisava aquec-la.
	Certo. Estou aqui.
O parto foi espetacular, confuso... um milagre. Katie acomodou o bebezinho nos braos de Izzy e observou me e filho com satisfao.
	Voc conseguiu, Iz  murmurou.  Bom trabalho.
Izzy sorriu para o beb e, ento, ergueu os olhos para Dan, que passou a ponta do dedo pelo rostinho rosado do filho recm-nascido.
	No foi to difcil, foi, querido?
Katie sentiu a mo de Seth em seus cabelos.
	Foi voc quem fez um bom trabalho  ele sussurrou ao seu ouvido.
Uma lgrima rolou pela face de Katie. Na verdade, fora Seth quem fizera o parto, enquanto ela ouvia e repetia as instrues que o mdico lhe dava pelo telefone celular.
	Minhas mos so maiores  ele dissera, antes de trazer o beb ao mundo.
Ento, procedera na suco da boca e nariz do garotinho, cortara o cordo umbilical, tudo com gestos firmes, que contradiziam a tenso em suas feies.
Dan olhou para Katie com olhos brilhantes.
	Ele no  lindo? No  o garotinho mais maravilhoso do mundo?
Katie e Izzy caram na risada.
	Assim como o pai  Katie respondeu.
O sorriso de Dan tornou-se ainda mais largo, e ele se virou para Seth.
	Sou pai. Tenho um filho.
Seth retribuiu o sorriso com tamanha ternura, que Katie sentiu um aperto no peito.
	Parabns, camarada  ele disse.
O telefone celular tocou. Seth atendeu, ouviu com ateno e alargou o sorriso.
	Boas notcias, pessoal. Conseguiram liberar parte da estrada. A ambulncia est a caminho.
Dan bateu palmas.
	Sei que est tudo bem, mas vou me sentir melhor depois que o mdico tiver examinado Izzy e...
	Virou-se para a esposa, aturdido.  Eu me esqueci do nome que escolhemos.
Seth voltou a sorrir.
	Seth  um belo nome.
Katie deu-lhe uma cotovelada bem-humorada.
	Espere um instante. Tenho certeza de que existe uma forma masculina para Katherine...
	Cuidado  Seth interrompeu.  Ela vai querer batizar o menino de Kumquat, ou algo parecido.
	Passou um brao em torno dos ombros dela.  Meu segundo nome  Alexander. Podem us-lo, se quiserem.
Katie deixou de ouvir as brincadeiras que se seguiram, para se concentrar no brao de Seth em seus ombros. O calor e a fora dele a animavam e, ao mesmo tempo, partiam-lhe o corao. Ela respirou fundo, saboreando o contato pela ltima vez. Prestes a perder o controle sobre as prprias emoes, decidiu que j era hora de se afastar de Seth.
T-lo de volta depois da separao no fora doloroso. Na verdade, Katie sentira-se grata por poder contar com ele. Mas, agora que o beb de Izzy e Dan j nascera, precisavam se separar de novo.
Chegara o momento de dizer o ltimo adeus.
Respirou fundo mais uma vez, enquanto os outros trs riam dos nomes sugeridos. Em breve, teria os seus bebs nos braos. Graas a Seth, ela havia aprendido que no precisava de um homem, de um pai, para completar aquele crculo.
O que a faria feliz, bem como aos gmeos, era o amor que sentia por eles, alm da determinao de ser uma boa me. Sua dedicao aos filhos definiria aquele grupo de trs pessoas como sendo uma famlia de verdade.
Seth voltou a apertar-lhe o ombro e sorriu.
	Certo?
Ela forou um sorriso e balanou a cabea, sem saber com o que estava concordando. Ele logo partiria e s lhe restava rezar para continuar sorrindo, quando isso acontecesse.
Seth fitou-a nos olhos e, como se a dor que ela guardava no corao estivesse estampada em seu rosto, o sorriso morreu nos lbios dele. Seth inclinou-se para ela, e Katie reconheceu imediatamente sua inteno de beij-la.
No!
Afastou-se, colocando-se fora do alcance dele. Se Seth a beijasse, ela fatalmente cometeria um grande erro, como pedir-lhe que ficasse.
Como contar a ele que o amava.
Katie no poderia permitir que isso acontecesse.
A ambulncia chegou, e aps um breve perodo de atividade intensa, Dan, Izzy e o beb seguiram para o hospital. Seth e Katie prometeram visit-los em breve. Embriagado de felicidade, Dan partiu prometendo que o beb se chamaria Sate, ou Keth.
Katie rezou para que o bom senso de Izzy prevalecesse.
Ento, a porta se fechou, e o silncio s foi quebrado pelos pingos da chuva no telhado e pelas batidas do corao de Katie.
Aps alguns minutos de constrangimento, Seth comeou:
	Acho que...
	Voc deve ir  Katie completou.
Seria melhor para ambos. Ele tinha de partir depressa. Do contrrio, ela poderia no resistir e contar que o amava.
	Quero conversar com voc  Seth falou.
	J  tarde. Por que no vai agora e... Ele se sentou.
	Katie, por favor, converse comigo.
Sem saber por que, ela obedeceu. Sentou-se diante de Seth, mantendo-se ereta, na beirada da poltrona, pretendendo com isso mostrar a ele a sua relutncia.
	Katie, no quero ir embora.
	Seth...
Se, ao menos, ela realmente acreditasse que ele queria ficar ao seu lado por alguma razo que no fosse obrigao...
	Hoje... O parto... Voc vai ficar sozinha, se eu partir.
Katie se ps de p em um pulo.
	Vou ficar bem, Seth.
	Eu sabia que voc diria isso.
	O que mais posso dizer? Como posso fazer voc entender que o que existe entre ns no  o que eu quero?
Seth tambm se levantou e se aproximou dela.
	Conheo voc, Katie. Mesmo que precisasse de mim, no me pediria para ficar.
Katie estremeceu, enquanto seu corao batia com fora ainda maior. Sabia o que poderia dizer a Seth... e o que no poderia. Se abrisse seu corao, ele fugiria.
	Voc entendeu tudo errado  murmurou.
Talvez ele houvesse sentido o seu tremor. Talvez, finalmente, Seth houvesse se dado conta do que ela tinha a dizer. Com um gesto lento, ele deixou a mo cair ao lado do corpo, ao mesmo tempo em que se afastava de Katie.
	O que eu entendi errado?
	No preciso de voc  Katie esclareceu com voz rouca.  Para ser honesta, amo voc. E por querer algum que tambm me ame, prefiro que voc v embora.
As feies de Seth endureceram, tornando-se ainda mais tensas do que nos momentos em que havia trazido um beb ao mundo.
	Voc me ama?  repetiu, como se no fosse capaz de compreender o significado das palavras.
Nada de excepcional aconteceu, ento. A verdade era que Katie havia esperado exatamente o que aconteceu.
Seth saiu da sala, vestiu o casaco e saiu de sua vida.
Seth ps no carro os presentes que havia comprado para Izzy e para os bebs, juntamente com as duas malas nas quais guardara os seus pertences: tudo o que precisava para voltar ao seu antigo estilo de vida.
A vida sem Katie.
Sentou-se ao volante, deu a partida no motor e saiu da garagem da casa de Katie. No olhou para trs, nem pensou no que vivera ali, nas ltimas semanas.
Afinal, no conseguia pensar em outra coisa, seno em Katie e nas palavras que ela havia pronunciado.
Seth sabia muito bem porque ela fizera aquela confisso. Se Katie admitira que o amava e, ainda assim, lhe pedira para partir, era porque realmente queria que ele sasse de sua vida.
E no fora isso o que ele quisera todo o tempo?
Por outro lado, Seth no queria abandonar os bebs. Quando o choque da descoberta e da separao passasse, conversaria com Katie sobre isso. Enviaria um telegrama, ou fax, ou telefonaria. Ento, discutiriam o relacionamento dele com os gmeos.
O hospital para onde Izzy fora levada no ficava muito longe. E, perto dele, situava-se o hotel onde Seth pretendia se hospedar, at poder partir para a Islndia. Estreitou os olhos, a fim de proteg-los do sol claro da manh, que os castigava.
Passara a noite inteira ouvindo o tique-taque do relgio, deitado na cama de Katie, agarrado ao travesseiro dela, aspirando-lhe o perfume. Ora, claro que poderia ter se deitado no quarto de hspedes, mas no o fizera.
Entrou no estacionamento do hospital. Katie fora sensata ao insistir que ele fosse embora. Se ela realmente o amava, ento ele possua o poder de arruinar a vida dela. Certamente, iria decepcion-la, abandon-la...
Olhou para a bagagem no carro. Ora, j estava abandonando Katie.
Cerrando os dentes, Seth apanhou os presentes, trancou o carro e, ento, usou a dificuldade em localizar o quarto de Izzy para no pensar em mais nada.
Logo se viu diante de uma porta entreaberta. Ficou ali parado, um buqu de rosas amarelas em uma das mos e uma bola de futebol que produzia barulhos engraados na outra, ouvindo o choro de um recm-nascido, os murmrios de Izzy, a risada abafada de Dan.
O tique-taque do relgio da casa de Katie voltou a ecoar na sua mente, como um alarme que o advertia para que prestasse ateno  passagem do tempo.
Acorde. Faa alguma coisa.
A porta do quarto se abriu por completo, e Dan apareceu.
	Ei, Seth! Como vai...
	Meu pai tambm foi embora  Seth falou, sentindo o sangue acelerar nas veias, as batidas do corao se tornando ensurdecedoras.
Embora o fitasse como quem tinha uma centena de perguntas a fazer, Dan se limitou a dizer:
	Sei...
	Ele nunca voltou, nem telefonou. No tenho meios de contar a ele sobre Ryan... sobre os gmeos.
	Sei...
	Mas eu quero saber  Seth continuou.  Sempre vou querer saber de tudo sobre os bebs.
Dan franziu o cenho.
	Voc vai saber, Seth.
	Sempre vou querer saber de Katie... como ela est passando...  Seth pousou a mo no brao de Dan.  Voc vai me contar, no vai? Se eu telefonar, vai me dizer como ela est?
	Se eu puder...  Um choro agudo interrompeu Dan.  Mas voc vai estar l, Seth. O que est sentindo no passa de pnico de futuro papai...  O beb voltou a chorar, e Dan deu meia-volta.  Volto j.
Seth no se moveu. Pnico de futuro papai. Dan no fazia idia do que estava se passando. Se Seth estava entrando em pnico, no era por causa da paternidade iminente, mas sim por causa de um sentimento chamado amor.
De repente, a sensao latejante que tomara conta de sua cabea se dissipou.
Se estava em pnico, era porque... Apertou as rosas com tanta fora, que um espinho atravessou o papel e feriu sua mo.
Estava em pnico por estar apaixonado por Katie.
Katie respirou fundo e abriu a porta de sua cozinha de trabalho. Depois de um dia de tempestades emocionais e uma noite de insnia, quisera voltar para casa quanto antes. Com a permisso de Dan, tomara emprestado um dos carros do casal de amigos e fora para casa, pela manh. Havia jurado que se encontrasse o carro de Seth na garagem, ficaria na lanchonete mais prxima at ter certeza de que ele j fora trabalhar.
A garagem estava vazia, mas o vapor no espelho do banheiro, bem como o perfume de Seth, indicavam que ele sara havia pouco tempo. E Katie descobriu outra coisa: Seth se fora em carter permanente. Suas roupas haviam desaparecido das gavetas, e suas malas no estavam no armrio.
Katie tinha sua casa de volta, somente para ela.
Olhou em volta, examinando a cozinha vazia e as janelas que davam para a casa ainda mais vazia.
Jamais em sua vida se sentira to solitria.
Porm, tinha encomendas de chocolate para preparar e uma de suas amigas pedira que ela providenciasse diversos doces para a festa de aniversrio da filha. Vestindo o avental, Katie decidiu preparar as varetinhas de pipocas doces e os amendoins com marshmallow colorido que sempre faziam sucesso entre a crianada.
Como a pipoqueira estivesse ligada, Katie quase no ouviu as batidas na porta. Deu um passo naquela direo e parou. Mesmo sem abrir a porta, sabia quem estava do outro lado.
	Droga!  praguejou baixinho.
Ao ouvir outra batida, ela se aproximou da porta lentamente. No queria ver Seth de novo, ao menos, por algum tempo.
	Quem ?  perguntou, sem abrir a porta.
	Sou eu.
O som da voz de Seth provocou um arrepio na espinha de Katie. Pare com isso!
	Eu, quem?
	Eu, Seth  ele respondeu, frustrado. Bom.
	O que voc quer?
Talvez ele houvesse esquecido de levar o passaporte, ou estivesse procurando a meia velha que ela havia jogado fora. Com um pouco de sorte, Katie resolveria a questo sem ter de abrir a porta.
	Quero falar com voc.
Pelo tom de voz de Seth, Katie percebeu que ele estava se esforando para manter a calma. Tal esforo agradou-a.
	Estou ouvindo.
	Pelo amor de Deus, Katie! Abra a porta. Isso  ridculo!
Sim, era ridculo, mas era bom. Falar com ele atravs da porta era muito melhor do que olhar para ele, desej-lo, sonhar com tudo o que ela jamais poderia ter. Mesmo assim, Katie abriu a porta.
Naquele exato momento, a pipoqueira desligou automaticamente. Assim, Katie nem sequer olhou para Seth. Dando-lhe as costas, correu at o balco para reabastecer o aparelho e lig-lo novamente. Ento, com o aroma apetitoso de pipoca fresca no ar e o barulho infernal da pipoqueira, virou-se para encar-lo.
	O passaporte est na primeira gaveta da cmoda, no quarto de hspedes  disse.  As meias velhas foram para o lixo, h duas semanas.
	O qu?
S ento Katie notou que Seth no parecia estar em condies melhores que as dela. Os cabelos se apresentavam desgrenhados, os olhos vermelhos.
E ela ainda queria se atirar nos braos dele e exigir que ele fosse seu para sempre. Forou um sorriso.
	Estou tentando adivinhar por que voc est aqui  falou , ou o que se esqueceu de levar.
Com uma risada amarga, Seth pousou a mo sobre o corao.
	Sei muito bem o que esqueci de levar. No foi por isso que voltei. Voltei para dizer...  Parou de falar e olhou por cima do ombro para a pipoqueira.
 Poderia desligar aquela coisa?
Katie gostaria de desligar sua sintonia com ele. Seth voltara para dizer... o qu? O que ele poderia dizer para tornar aquela situao menos dolorosa?
Nada.
	S mais um minuto  ela disse, temendo que o silncio permitisse a ele ouvir as batidas de seu corao.  Pode falar.
Com um suspiro, ele cruzou os braos.
	No vou embora  declarou.
	Tudo bem, vou desligar a pipoqueira, se  o que voc quer.
Porm, Seth a segurou pelo brao.
	No. Estou dizendo que no vou embora da cidade, que no vou viajar para a Islndia.
Katie fitou-o nos olhos pela primeira vez, desde que Seth entrara na cozinha.
	J falamos sobre isso, Seth.
	Voc disse o que tinha a dizer. Eu no disse nada.
Bem, era verdade, mas Katie no queria ouvir mais nada.
	Sei o que voc quer me dizer  falou, baixando os olhos para o cho.  Acha que deve ficar e me ajudar at o final da gravidez, estar ao meu lado durante o parto, que eu espero que acontea em uma sala de parto, alternar as trocas de fraldas de madrugada...
	Certo, mas...
	Mas eu no quero um heri, Seth. Quero um marido.
	Quero ser o seu marido, Katie.
	Sei que o que experimentamos ontem foi intenso e... assustador. Mas tenho certeza de que serei capaz de enfrentar isso sozinha. Sei que sou forte e...
Ele sorriu.
	Tambm sei disso, Katie. Quando nos casamos, eu a via como minha me. Achava que voc precisava de um homem. Agora, sei que isso no  verdade e que voc  perfeitamente capaz de enfrentar tudo isso sozinha.
Katie no pde reprimir a satisfao que a invadiu diante daquela demonstrao de confiana.
	Os gmeos...
	Ficariam muito bem com voc, Katie. Voc faria um grande trabalho, como me. Acontece que quero fazer parte da vida deles, tambm.
	Vai ser assim. Encontraremos um jeito de...
	Quero fazer parte da sua vida, Katie. Eu te amo.
	O qu?
Em um piscar de olhos, Seth tomou-a nos braos.
	Estou apaixonado por voc.
Katie manteve os olhos fixos no cho. No queria olhar para Seth e reconhecer as boas intenes em suas feies.
	No... Por favor, no diga isso  pediu.
Ele a apertou contra si.
	Mas  a mais pura verdade, Bela. S demorei um pouco para perceber.
Katie sentiu o corao prestes a explodir dentro do peito, como se acreditasse naquelas palavras. Grande tolice.
	Voc nunca se viu com esposa e filhos  lembrou-o.
Seth segurou-lhe o queixo e forou-a a fit-lo.
	Porque eu tinha medo, Katie. Toda aquela histria de achar que eu seria igual ao meu pai e acabaria magoando voc foi uma maneira que encontrei de no enfrentar a realidade.
	Que realidade?
	Se amasse voc, eu poderia sofrer, tambm. Voc poderia me abandonar, como meu pai fez, como minha me abandonou a mim e meu irmo, emocionalmente... como Ryan me abandonou h poucos meses.
Katie ergueu a mo para acariciar aquele rosto terno, familiar, talvez... seu para sempre.
	No vou abandonar voc  afirmou.
	Estou disposto a correr o risco.
 Eu...  Katie ia dizer "Eu tambm", mas o beijo de Seth a impediu.
Sentiu-se derreter nos braos dele e se entregou  promessa de um futuro de amor que aqueles lbios ofereciam.

Eplogo

A mesa-de-cabeceira encontrava-se coberta de flores. Um verdadeiro zoolgico de pelcia povoava os ps da cama de Katie. Bales coloridos enfeitavam o teto do quarto de hospital. Feliz e exausta, Katie sorriu para seu marido.
	No suporto olhar para voc!  mentiu.  Como pode parecer to descansado e cheio de energia?
Seth ergueu os olhos dos dois bebezinhos embrulhados em seus cobertores.
	O que disse, Bela?
	No sei se estou contente com essa concorrncia  ela disse, sacudindo a cabea.  Mas so mesmo as criaturinhas mais lindas que j vi.
Seth afagou-lhe os cabelos e beijou-lhe os lbios com suavidade.
	Como a me.
Katie segurou-lhe a mo, pressionando-a contra o rosto.
	Eu os senti junto de ns, Seth... Ryan e Karen estavam aqui, ontem  noite.
	Eu sei. Tambm senti felicidade e paz.
Katie reprimiu as lgrimas, pois aquele era um momento para sorrisos apenas.
	Vou me sentir bem melhor quando terminarmos de preencher esses papis. Importa-se de se encarregar disso, querido?
Seth assentiu e apanhou os papis e a caneta.
	Se tiver de escrever o nmero do meu seguro social mais uma vez... Ora, estes so os documentos para as certides de nascimento.
	Sim  Katie confirmou, distrada com os bebs em seus braos.  Precisamos preencher com os nomes escolhidos.
Seth no se mostrara disposto a discutir os nomes at ento. Dizia que Katie teria liberdade de escolha, embora fosse implacvel na recusa dos nomes que no o agradavam.
	No sei, Katie...  ele falou, hesitante.  Se eu escolher os nomes, os bebs me pertencero.
Katie sorriu.
	J pertencem, Seth. Assim como eu.
Seth ergueu os olhos para a mulher que trouxera tudo para sua vida: felicidade, lar, filhos.
Filhos.
Em seu corao, Seth fizera uma promessa solene a cada um dos bebs. Estarei sempre com vocs, pensara, olhando para os rostinhos delicados.
	Eu te amo  declarou, fitando sua esposa nos olhos.
Ela sorriu e observou-o preencher o formulrio que proclamava que aqueles bebs eram dele. Como Katie dissera, pertenciam a ele.
Tanto Katie, quanto Angela e Rose.

Fim

CHRISTIE RIDGWAY apaixonou-se por romances ainda menina, quando gastava toda a sua mesada em livros. Agora, vivendo no sul da Califrnia, ela realiza seu sonho de ser uma autora com livros publicados. Seu trabalho s  interrompido ocasionalmente (ah! ah! ah!) por seus dois filhos. Alm de escrever, ela trabalha como voluntria na escola dos filhos e adora ler e cozinhar. Christie acredita que sua felicidade se deve s artimanhas que usou para conquistar seu marido, Rob.
Christie adora receber cartas de suas leitoras. Escreva para P.O. Box 3803, La Mesa, CA 91944.
